Luiz Hermano volta com seus denhos no espaço
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terça-feira, 21 de março de 2000
Por Maria Hirszman 
São Paulo, 22 (AE)- Luiz Hermano está de volta, com uma série de trabalhos surpreendentes. Três anos depois de mostrar um conjunto de esculturas marcadas pelo retorno à ordem geométrica e construtiva - mesmo que seus quadrados e cubos jamais tenham perdido o espírito artesanal e precário que marcam sua obra -, o artista tomou um rumo mais livre, voltando à mesma galeria com uma obra de forte caráter orgânico, com referências bastante explícitas ao corpo humano.
A exposição, que será inaugurada amanhã (23) à noite, reserva boas surpresas. Os trabalhos foram divididos em dois blocos. No térreo da galeria estão "as obras mais zen", como classifica Hermano. Entre eles estão trabalhos de uma simplicidade estonteante, que se assemelham a desenhos no espaço. Há uma peça em cobre, sem título, que preserva ainda uma certa lógica geométrica. Mas logo em seguida as formas se suavizam, adquirindo às vezes uma interessante languidez, como no caso de Canguru.
Já nas obras do segundo andar há claras referências ao corpo humano: torsos, olhos, línguas, cérebros, sexos e até cabeleiras. Uma das diversas novidades dessa exposição é o surgimento da cor (vermelho, amarelo, verde, e não apenas os tons naturais adquiridos pelos metais). Há, por exemplo, uma grande e ambígua estrutura de cobre esmaltado em vermelho, meio cheia e meio vazia, que parece resumir a multiplicidade de caminhos tomados pelo artista.
Outra característica interessante da produção desenvolvida por Hermano nos últimos anos é a pesquisa de novos materiais. Em vários trabalhos o artista incorpora objetos de uso cotidiano, como ralos (Cheia), anéis de ferro (Rede de Anéis) ou bobinas de motor (Módulo Contínuo). O seu interesse, no entanto, não se assemelha ao dos neo-realistas nem tem nenhuma intenção de reciclagem. "Tudo é uma coincidência; eu estou apenas à procura de novos materiais, de novas possibilidades", diz.
A diversidade criativa dessa mostra é reflexo direto da curiosidade e desejo de mudança do artista. "Tenho uma enorme sede de renovação e atualização", diz. Com mais de 20 anos de carreira, Hermano já foi desenhista e gravurista. Levou quase uma década para se aventurar na escultura, o que considera um desdobramento natural de seu trabalho inicial. "Na minha vida, tudo flui e se encaixa", brinca ele, dizendo que muitas vezes encontra em seus arquivos o esboço de trabalhos atuais. "Eu continuo desenhando no espaço", resume.
A preocupação central de Hermano é estética. "Eu lido com a beleza, meu mundo é dionisíaco", diz o artista, afirmando não entender por que a arte contemporânea sente tanta necessidade de lidar com a pobreza e a feiúra que vemos todos os dias nas ruas. Como destaca Tadeu Chiarelli no texto que escreveu para o catálogo da exposição, suas esculturas "são feitas para serem observadas (e tocadas, pelo menos no plano do desejo)".
Outra característica interessante é o caráter eminentemente brasileiro de seu trabalho. Curiosamente, quanto mais Hermano viaja (nos últimos anos ele descobriu, encantado, a ásia), mais encontramos em seu trabalho elementos que remetem ao Brasil. Essa referência, que sempre foi extremamente sutil e que muitas vezes dependia dos sugestivos títulos dados às obras, parece estar ganhando corpo. Não é à toa que obras como Canguru e Olho têm - mesmo que inconscientemente - algo da forma da bandeira brasileira.
O artista concorda e se sente feliz em afrontar essa arte dita universal, mas não sabe exatamente o porquê dessa brasilidade em sua obra. "Talvez porque vivi até os 13 anos no mato", arrisca ele, lembrando de sua infância em Fortaleza. Ou como diz Chiarelli, talvez seja seu "modo de produção precário, originário de um mundo pré-industrial" que acabe transformando sua obra "numa espécie de metáfora muito particular de um país como o Brasil, onde modos de produção se entrelaçam e se digladiam com espantosa naturalidade".


