Luiz Carlos da Vila lança CD em homenagem a Candeia, amanhã, na choperia do Sesc Pompéia
São Paulo, 15 (AE) - A idéia inicial de Luiz Carlos da Vila não era fazer um disco cantando Candeia, mas um disco em que cantasse - e é um grande cantor - músicas suas que foram gravadas por outros. Só que o ano passado era o vigésimo da morte de Antônio Candeia Filho, de quem Luiz Carlos é parceiro - póstumo - no samba "A Luz do Vencedor".
É uma história de admiração profunda. Há alguns anos, Luiz Carlos compôs "O Sonho não Acabou", homenagem a Candeia que foi gravada inicialmente por Beth Carvalho e transformou-se num dos grandes sucessos dela ("A chama não apagou/ Nem se apagará/ És luz de eterno fulgor/ Candeia/ O tempo que o samba viver/ O sonho não vai acabar/ E ninguém irá esquecer/ Candeia").
Candeia foi uma personalidade polêmica. Violonista, cavaquinhista, capoeirista, frequentador de terreiros de candomblé, era da escola Vai como Pode e participou do núcleo fundador da Portela, para a qual compôs sambas-enredo e que cantou em outros sambas. Era policial. Levou um tiro, ficou paralítico - desde o início dos anos 60 movia-se numa cadeira de rodas.
Era aglutinador - a sua volta reuniam-se velhos e novos sambistas. Era de rompantes - em 1975 deixou a Portela, por discordar dos rumos que a escola tomava, criou o Grêmio Recreativo de Arte Negra Escola de Samba Quilombo, e na sede da escola liderava reuniões de samba e de discussões sobre as questões da raça.
Era respeitado pela firme defesa dos direitos dos negros - e pela maravilha de suas músicas, gravadas por Paulinho da Viola (Filosofia do Samba; Paulinho ainda gravou, parceria deles
Minhas Madrugadas), Clementina de Jesus (Vai de Saudade, A Paz no Coração, parcerias com Davi do Pandeiro), Clara Nunes (Anjo Moreno, Seriorerê). Fez discos memoráveis, como "Seguinte..." "Raiz" e "Axé", sendo que este último saiu pouco depois de sua morte.
Escreveu um livro fundamental para o entendimento do processo que afastou as escolas de samba de suas origens (A árvore que Esquece a Raiz, a quatro mãos com Insard, Lidador, 1978) e mereceu um brilhante ensaio biográfico de João Batista Vargens (Candeia: A Luz da Inspiração, Funarte/Martins Fontes, 1987).
Foi parceiro de Paulinho da Viola, Casquinha, Valdir 59, Paulo da Portela, Martinho da Vila, figuras míticas do mundo do samba. Luiz Carlos resgatou, no CD "A Luz do Vencedor", algumas parcerias célebres, mas fez mais: incluiu quatro músicas inéditas de Candeia, obtidas a partir de fitas que estavam de posse do biógrafo João Batista Vargens. São elas: "Casa Amarela" e "Flecha de Cupido" (ambas com Casquinha), "Infeliz" (com Catoni), e "Nem Sei" (só dele). Em "Nem Sei", ouve-se a voz do compositor.
No texto de apresentação, Luiz Carlos e o produtor, arranjador e violonista Cláudio Jorge declaram-se "orgulhosos, felizes e indignados" com o resultado. "Indignados com o que o Brasil está fazendo com os seus artistas mais naturais", escrevem. "Indignados com o apartheid cultural instituído por aqui, onde os artistas criadores do samba mais original, requintado, culto e consequente criado no País estão sendo jogados no gueto dos pobres e velhos, sendo excluídos do rico mercado de música".
Sabem do que estão falando, pois são vítimas de tal processo. Em particular, Luiz Carlos da Vila, um dos talentos mais exuberantes produzidos pela música popular brasileira, um compositor refinado, poeta de fina verve - e que está fora do mercado, ou quase. De seus quatro discos anteriores, dois estão fora do mercado e os dois CDs feitos para a gravadora Velas são difíceis de encontrar.
Bom, mas "A Luz do Vencedo"r guarda a beleza, o bom-humor e, apesar dos pesares, a esperança, já no título. E Luiz Carlos da Vila, autor de "Kizomba, Festa da Raça", samba que levou sua escola à vitória, chegou ao mundo do samba nos anos 70. "Consegui ser parceiro dos grandes do meu tempo - João Nogueira, Martinho", orgulha-se. "Do Elton Medeiros ainda não, mas ele está cobrando uma parceria comigo, e a parceria com Paulinho da Viola está engatilhada", conta. "Depois disso, já posso ficar fazendo samba comigo mesmo - e faz muito bem".
Mas pelo tanto que gosta de Candeia, abriu mão do disco autoral. "Nós todos, sambistas, achamos Candeia o sambista mais completo", justifica. "Ele visitava todo o universo da cultura afro-brasileira, regia jongo, fazia samba-canção, partido-alto". Luiz Carlos começou a aparecer nas reuniões de fundo de quintal do Cacique de Ramos e lembra de então: "Quando não estávamos cantando nossas músicas, estávamos cantando Candeia".
Era, portanto, uma dívida de honra, resgatada num disco rigorosamente magistral, um dos mais bonitos de toda a discografia brasileira, obra de mestre. De mestres.





