Luis XV, a fera e a Revolução
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quinta-feira, 04 de julho de 2002
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Lançado na França há exatamente um ano e meio, um filme de ação ambientado no século 18 não frustrou a enorme expectativa que durante meses antecedeu a estréia. Em pouco tempo se transformou em fenômeno de bilheteria em território francês, batendo com sobras a concorrência hollywoodiana e fornecendo motivação ainda mais sólida para o que se poderia chamar de ''efeito Astérix'' a permanente resistência cultural gaulesa contra a invasão da ''barbárie'' do cinema americano, que de resto sufoca todo o mercado europeu e mundial por extensão, excluído o universo do Islã e as impermeáveis e auto-suficientes castas produtoras da Índia.
Se nos últimos tempos você idealizou e vem procurando nos cinemas alguma espécie de espetáculo com argumento intrigante e movimentado, bose dose de choques e surpresas, uma pitada de sexo e estímulos para o intelecto, então sua opção pode ser ''O Pacto dos Lobos'' (veja a programação de cinema na página 2). O filme é alguma coisa mais ''dark'', uma versão mais complexa daqueles clássicos exemplares de horror produzidos pela inglesa Hammer nos anos 1950 e 60. Ou, visto de outro ângulo, uma espécie de ''Tubarão'' retrabalhado em chave de rituais satânicos. O local da ação é Gévaudan, lugar remoto ao sul da França. O ano é 1766. Há um narrador, presumivelmente aristocrata, recordando os eventos que antecederam seu trágico destino nas mãos de camponeses, 25 anos mais tarde, durante a Revolução. Segundo cronistas da época, existiu de fato uma espécie de ''Besta de Gévaudan'', que aterrorizou a região lá pela metade do século 18, dilacerando mulheres e crianças. O tal monstro nunca foi encontrado, e o filme trata de buscar uma resposta para este mistério irresolvido. As mortes são muitas, com os corpos mutilados. Como se nota, pode ser uma história baseada em fatos reais. Ou irreais.
Lembrando o ambivalente muscular e intelectual monge William de Baskerville, criado por Umberto Eco em ''O Nome da Rosa'', eis que surge em cena o aventureiro e libertino Grégoire de Fronsac (Samuel Le Bihan), recém-chegado da América e enviado por Luis XV para capturar a criatura. Nesta empreitada ele é acompanhado pelo amigo e irmão de sangue, o não menos carismático Mani (Mark Dacascos), monossilábico e misterioso índio canadense da tribo Mowhak ecos de ''O Último dos Moicanos''. Como se para provar a velha teoria de que a América foi originalmente habitada por imigrantes asiáticos que teriam cruzado o estreito de Bering, Mani é um artista marcial, expert em kendô e karatê, conforme cabalmente demonstrado na eletrizante sequência de abertura quando a dupla, enlameada e sangrando, põe a nocaute alguns vilões prestes a liquidar um velho e sua filha selvagem, na verdade dois entre os muitos descontentes com a autoridade e os valores da corte.
Com alguma relutância e desconfiança, os rústicos camponeses das redondezas cooperam na investigações de Grégoire ressonâncias de ''A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça'', a penúltima ''extravanganza'' de Tim Burton. Uma rivalidade particular surge entre o enviado do rei e o aristocrata, explorador e caçador Jean-François (Vincent Cassel), que suspeita que o forasteiro anda atrás de sua bela irmã (Emilie Dequenne). Mas na verdade Gregoire está mesmo de caso com a estupenda Sylvia (Monica Bellucci), com quem se encontra num exótico bordel e que, como de resto todo mundo, não é exatamente o que parece.
Espetacular e romanesco, caro e excessivo por vezes transbordante , popular e passional, inteligente e simpático: pelas mãos de Christopher Gans, ''O Pacto dos Lobos'' é aventura, kung fu, cinema fantástico, western. É alegoria política, é arte marcial, é ritual satânico. O roteiro é preciso em fornecer sentido de época e lugar, e tudo parece ter duplo entendimento numa sociedade isolada, no limiar do Iluminismo, onde o racionalismo de Grégoire bate de frente com o irracionalismo local. A besta, claro, por um lado assume uma espécie de projeção subconsciente (para cotejar: ''O Planeta Proibido'', 1956) de medos e ressentimentos compartilhados pela comunidade. E por outro é um bicho bem real e assustador que todos tentam capturar.
Fotografia (do dinamarquês Dan Lautsten) e desenho de produção extraordinários. E outra delícia a curtir é o elenco soberbo, reunindo nomes de agora (Cassel, Dequenne, Le Bihan) e veteranos como Jean Yanne, Jacques Perrin, Bernard Fresson e Jean-François Stevenin.


