São Paulo, 24 (AE) - Foram necessários 21 anos - 8 na antiga Brasiliense e mais 13 até agora na Companhia das Letras - para que a maioridade como editor servisse de aval para sua rendição: apaixonado por ficção, mas sempre duro na queda, Luiz Schwarcz escreveu o próprio livro.
Já à venda há duas semanas, "Minha Vida de Goleiro", que faz parte da coleção Memória e História, da Companhia das Letrinhas (braço de sua editora que cuida da área infanto-juvenil), será lançado oficialmente amanhã, a partir das 19 horas, na Livraria da Vila.
O processo de iniciação foi doloroso e exaustivamente refletido. "Eu temia que a qualidade do meu texto não atingisse o tal nível alto de que não abro mão nos livros da Companhia", comenta. Aos poucos, porém, deixou fluir o inevitável. Sem preconceitos e disposto a assumir suas vontades literárias para homenagear a própria família, Schwarcz tirou do armário da editora aquela sua porção de artista escrevinhador, até então adormecida, e entrou para a estante.
Com "Minha Vida de Goleiro", ele começou escrevendo sobre si, sua infância e seus parentes, num relato assumidamente autobiográfico, destinado a agradar a seus pais e servir como um presente para seus filhos.
"Queria lembrar dos meus pais com meu olhar de criança, guardá-lo e mostrá-lo a meus filhos", escreve ele, quase no fim do livro. Tudo muito pessoal. Tanto é assim que Schwarcz garante ter pensado na sessão de autógrafos de amanhã como um mero pretexto para seu André e dona Mirta reunirem amigos e familiares numa linda noite de confraternização.
A vontade de escrever sobre seus pais começou há cinco anos, quando ele foi a Budapeste conhecer as origens de sua família, judeus que fugiram da Hungria para escapar da perseguição nazista na época da 2.ª Guerra.
Só no ano passado, em setembro, numa tarde de melancolia
seu sonho começou a tomar forma de livro. Sentou à frente do computador, em casa, e escreveu apenas dois parágrafos durante todo aquele dia. Um dia que, sem ele ainda se dar conta, já era o primeiro do resto de sua vida de editor. Nascia o escritor-editor.
Terminou de escrever em março, sempre nesse ritmo lento, mostrando cada parágrafo para a mulher e os filhos. "Era uma curtição demorada, uma emoção a cada nova frase, a cada nova lembrança que virava texto", conta.
Para arrematar, por sugestão da mulher, Lilia Moritz Schwarcz, que comanda a Companhia das Letrinhas, fez um apêndice sobre a 2.ª Guerra Mundial. Pediu ajuda à filha Julia, de 18 anos, que acaba de entrar para a Faculdade de História. Sem grandes pretensões, o apêndice resultou num texto claro, conciso e objetivo sobre a história da guerra, ideal para uso nas escolas de ensino secundário.
"Não posso considerar-me um escritor, pois o máximo que tinha feito até agora era ficar vaidoso por alguma boa carta entre as que escrevo diariamente no escritório", diz ele. "Eu sempre me bloqueei muito e, por isso, quero manter bem lá embaixo minhas expectativas com relação a esse livro." Logo depois, acrescenta: "Ele foi escrito com seriedade e sinceridade; se as pessoas gostarem, talvez eu me solte e entre de vez para essa vida de escritor."
Um pouco mais de conversa e admite: "Não posso negar que me daria muito prazer escrever uma ficção realmente de fôlego." E termina por revelar: "Depois de "Minha Vida de Goleiro, já escrevi dois contos, que aprofundam a história de dois personagens que passam rapidamente pelo livro." Definitivamente, Luiz Schwarcz capitulou, picado pela mosca sedutora da literatura. Serviço: "Minha Vida de Goleiro", de Luiz Schwarcz, com ilustrações de Maria Eugênia. Companhia das Letrinhas, 48 págs. R$ 16,50. Lançamento amanhã, a partir das 19 h. Livraria da Vila. Rua Fradique Coutinho, 915, tel. 814-5811

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