São Paulo, 22 (AE) - O primoroso trabalho do ator Luís Melo faz de "Nijinski - Divino Bufão" um espetáculo imperdível. O monólogo baseado nos diários do bailarino russo Vaslav Nijinsky (1890-1950) volta a São Paulo em apenas duas apresentações, amanhã e sábado, integrando a série Solos de Teatro do Sesc Ipiranga. Sob direção de Rossela Terranova, Luís Melo interpreta o bailarino no limiar entre a sanidade e a loucura. O texto de Claúdia Schapira baseia-se num longo diário escrito pelo artista entre 19 de janeiro e 4 de março de 1919, aos 29 anos. Ao terminar de preencher as quase 400 páginas de 14 cadernos escolares, publicadas no Brasil com o título "Cadernos de Nijinski" pela Livraria Francisco Alves, o bailarino trocou de vez uma vida de turnês pelos palcos do mundo por uma peregrinação de 31 anos por hospícios, até sua morte, em 1950, aos 60 anos.
Ao escolher esse momento crucial da vida de Nijinski, o objetivo do ator foi mostrar a fragilidade da fronteira entre o delírio criativo e o processo esquizofrênico. Numa das cenas, Melo escreve uma frase no diário e, subitamente, passa a repeti-la, variando sonoridades e gestos, como se criasse no ar uma coreografia. Belíssima, a cena funciona como uma síntese do momento vivido pelo bailarino. Observada com olhos clínicos, remete ao comportamento de um louco. Com olhos lúdicos, vê-se um artista em processo de criação.
"O diário é fruto de um impulso fascinante: sentindo-se à beira do abismo, sem conseguir sublimar sua loucura por meio da arte, ele tenta registrar seus sentimentos". É preciso não esquecer que Nijinski se tornou um mito não só pelo seu talento como dançarino - ficaram famosos os seus saltos nos quais parecia pairar no ar. São igualmente inesquecíveis suas coreografias que chocaram pelo ineditismo e revolucionaram o mundo do balé, entre elas, "O Espectro da Rosa" (1911), e "LAprs Midi dun Faune" (1912). Longe de ser um bailarino, Melo afirma ter procurado investigar o homem e não o mito Nijinski.
Nascido em Kiev, Vaslav Nijinski entrou para a Escola Imperial de Ballet aos 10 anos. Em 1908, conhece o empresário Serge Diaghilev e a partir daí sua carreira deslancha e ele ganha os palcos do mundo. No auge da carreira, Nijinski casa-se com a bailarina Romola de Pulsszki. Começa aí sua decadência. Irritado, Diaghilev rompe com o bailarino. Acostumado a viver sob a proteção de mestres, Nijinski não consegue administrar a carreira, começa a ter dificuldades financeiras e entra em surto esquizofrênico.
O cenário/instalação, criado pelo artista plástico Ernesto Neto, todo em tecidos brancos, remete a um só tempo à brancura dos hospitais e aos panos brancos que cobrem os móveis, quando os moradores vão deixar por um longo tempo uma casa. Serviço - "Série Solos de Teatro". Amanhã, das 9 horas às 13 horas, workshop com o ator Luís Melo; amanhã e sábado, às 21 horas, apresentação do espetáculo Nijinski - Divino Bufão, monólogo com Luís Melo, sob direção de Cláudia Shapira e Rossella Terranova. R$ 10,00. Sesc Ipiranga. Rua Bom Pastor, 822
tel. 3340-2000. Até sábado

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