Luís Melo estréia "Nijinsky" em SP
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terça-feira, 20 de abril de 1999
Por Beth Néspoli 
São Paulo, 21 (AE) - A interpretação do ator Luís Melo foi considerada brilhante pela crítica especializada presente ao Festival de Curitiba, no qual ele estreou seu espetáculo-solo "Nijinsky - Divino Bufão", sob direção de Rossella Terranova, que inicia amanhã (22) temporada em São Paulo, no Teatro Faap. O monólogo inspira-se nos diários do genial bailarino, um dos maiores mitos da dança, criador de coreografias revolucionárias, como "O Espectro da Rosa" (1911), a obra do famoso salto no qual parecia pairar por alguns segundos no ar e "LAprs Midi dun Faune" (1912).
Vaslav Nijinsky nasceu em Kiev, então na Rússia, em 1890
e aos 10 anos entrou para a Escola Imperial de Dança, na Rússia. Em 1911, iniciou sua turnê de volta ao mundo na Cia. de Bailados Russos, dirigida por Sergei Diaghilev. Em 1913, numa turnê realizada pela América do Sul, quando o navio entrava na Baía de Guanabara, pediu em casamento a bailarina húngara Romola de Pulsszki. Casou-se em Buenos Aires e passou a lua-de-mel no Rio.
Seu diretor e protetor, Diaghilev, que pela primeira vez não acompanhava a companhia por temer viajar de navio, se irritou com o casamento realizado sem o seu consentimento e despediu Nijinsky. A partir daí, a trajetória do bailarino não foi mais a mesma, surgiram dificuldades financeiras e os primeiros sintomas da esquizofrenia, doença que encerraria a sua carreira aos 29 anos. Em janeiro de 1919, Nijinsky entra em surto e fica longo tempo imóvel em pleno palco naquela que se tornou sua última apresentação no Hotel Suvretta, na Suíça.
Passa 30 anos internado num sanatório e parece ter uma ligeira melhora no fim da vida ao reencontrar na Inglaterra a bailarina russa Nicolaeva Egat. Juntos chegam a planejar sua nomeação para diretor artístico de uma cia. de dança, mas o projeto não se realiza e ele morre em 1950.
O roteiro de "Nijinsky", criado por Claudia Schapira, inspira-se num momento crucial da trajetória do bailarino, espécie de fronteira entre a lucidez e o delírio. Após a fatídica apresentação no hotel da Suíça e pouco antes de internar-se, entre 19 de janeiro e 4 de março de 1919, Nijinsky escreveu um longo diário, publicado no Brasil pela Livraria Francisco Alves Editora com o título "Cadernos de Nijinsky".
"O diário é fruto de um impulso fascinante desse homem que até então conseguia transferir sua loucura para o palco, sublimá-la por meio de sua arte e, naquele momento, se percebe à beira do abismo e registra seus sentimentos", diz Melo. Segundo o ator, as anotações oscilam entre a lucidez e o delírio e refletem a urgência do artista que, já sob efeito de medicamentos, luta contra a aceleração dos sintomas da esquizofrenia para expressar-se. "A linguagem é fragmentada, porque ele não consegue mais desenvolver um raciocínio mais longo".
Nijinsky, que se autodenominava O Palhaço de Deus, fala em seus diários de sua admiração pela figura dos bufões shakespearianos. Os bufões são personagens que, protegidos pela "máscara" de bobos da corte, diziam verdades não raro incômodas ao rei e viviam no fio da navalha entre a privilégio de divertir dizendo a verdade e o risco de ir longe demais e desagradar aos poderosos, o que significava risco de vida.
"Gostaria que esse espetáculo fosse também uma homenagem a todos os outsiders, Bispo do Rosário, Artaud e todos os artistas que enfrentam uma luta ferrenha para seguir criando dia a dia no Brasil", afirma Melo. Em seu espetáculo, o ator quer desvincular o homem do mito, para resgatar o primeiro, capaz de criar suas coreografias por meio de um impulso quase infantil, lúdico. Plenitude - Segundo o ator, ao escrever seus diários, Nijinsky vive também um momento de plenitude. "O espetáculo quer trazer um pouco desse fascinante artista/criança que em sua solidão entra em devaneio criativo". Melo ressalta ainda que a vida inteira Nijinsky esteve sob os cuidados de alguém, primeiro na Escola Imperial de Dança, ainda criança, depois sob a tutela de Diaghilev e, mais tarde, da mulher Romola.
"Ele chega a explicitar no término do diário que nunca mais viverá como antes, mas que, numa espécie de vingança, vai obrigar os outros a cuidar dele", conta o ator. "Vou tiranizar
gosto de tiranizar e a tirania me é familiar", escreveu o bailarino. Segundo Melo, os diários serviram para adiar uns meses a entrega do artista à loucura.
O cenário do espetáculo, uma instalação do artista plástico Ernesto Neto, remete a essa idéia de despedida. "A instalação é feita de um tecido elástico, todo branco e remete àqueles panos brancos que as pessoas colocam sobre os móveis quando vão afastar-se por muito tempo de suas casas", comenta Melo.
O ator cujo físico está longe de ter a leveza do famoso bailarino, não se propôs a dançar em cena, mas quem viu o espetáculo no Festival de Curitiba se surpreendeu com a criatividade e a beleza de seu gestual, capaz de sugerir a essência da criação de Nijinsky. "Não sou bailarino e não me propus a retratar a trajetória do bailarino Nijinsky nos palcos, mas sim falar do homem", salienta Melo.
Ele lembra que o artista russo rompeu com uma padrão de dança e encontrou na figura do bufão, o palhaço de Deus, a tradução para sua necessidade de captar uma verdade e transmiti-la ao público, sem perder o sentido lúdico da dança. Ao que tudo indica, essa é a idéia perseguida na concepção do ator para esse seu espetáculo-solo "Nijinsky".


