A carreira de Irene Ravache sempre foi mais pautada por seus projetos pessoais, como produtora, diretora e atriz de teatro. Por isso mesmo, trabalhar mais uma vez com Silvio de Abreu e boa parte do pessoal com quem esteve quando atuava em ''Passione'', na pele da excêntrica Clô, já seria um bom motivo para dizer sim ao convite para interpretar qualquer personagem do remake de ''Guerra dos Sexos''.
Mas Irene assume que ficou sem ar quando descobriu que, na verdade, o chamado era para viver o mesmo papel que Fernanda Montenegro na primeira versão. ''O Silvio começou dizendo que iam fazer de novo a novela. Achei ótimo porque eu não pude assistir na época. Depois, me disse que chamaria o Tony (Ramos) para o papel do Paulo Autran. E, em seguida, avisou que a Charlô era minha. Jamais imaginei que faria parte disso, ainda mais assim. Fernanda é a maior atriz do Brasil'', exalta, com os olhos brilhando.
E ela sabe que passará por vários momentos de emoção, já que sempre foi amiga de Fernanda e Paulo. Como na hora de gravar a histórica cena da guerra de comida. Quando se lembra do tempo que conviveu com Paulo, Irene chega a se emocionar. ''Fui apaixonada por ele na adolescência. E trabalhamos juntos na peça 'Pato com Laranja'. Ele fazia algo lindo, que nenhum colega jamais fez: passava pelo meu camarim, batia na porta e me buscava para chegarmos juntos ao palco. Um cavalheiro'', lembra.

Você já citou a Fernanda Montenegro várias vezes como uma das maiores atrizes que já viu. Interpretar um papel que foi dela influencia de alguma forma o seu trabalho?
Primeiro, é uma honra ser escolhida para essa função. Mas o trabalho de Fernanda e de Paulo é um clássico e ele está lá, onde é o lugar dele, dentro dos grandes momentos da televisão. Me sinto privilegiada porque sou cria da Fernanda e do Paulo e também amiga deles. É uma continuidade bonita. Existe uma coisa que eu acho que é muito especial no nosso trabalho: essa multiplicação de possibilidades. E um ator fica muito contente, vibra quando vê o trabalho do outro. Fernanda viu nossas primeiras cenas e estava visivelmente emocionada. Dizia que, na primeira versão, não havia tantas condições técnicas. Resumindo, existe, sim, a responsabilidade. Mas vem abonada por um carinho e um afeto muito grande. Me dá a chance de fazer a minha Charlô.
As diferenças entre homens e mulheres na sociedade têm diminuído nas últimas três décadas, época em que a primeira versão foi exibida. Você acha que esse ainda é um tema recorrente?
As mulheres ainda continuam sua luta. Hoje, esses casos que nós temos, como de mulheres presidentes de países, são minoria. Não precisa ir longe para ver que a mulher ainda tem de romper barreiras. No nosso próprio país elas são assassinadas porque buscam um pouco de independência. Basta sair do eixo Rio-São Paulo ou de qualquer outra capital que ainda estamos em segundo, terceiro, quinto plano. Em diversas cidades as mulheres ainda não têm os mesmos salários que os homens, mesmo com funções iguais ou tendo o mesmo currículo. Há locais em que o homem fala pela mulher, escolhe por ela. Hoje, até é vendida uma imagem da mulher que aparentemente é de liberdade, de mulheres que se exibem, mas isso é o contrário, é uma prisão em retrocesso.
Você já se sentiu inferior a um homem na sua profissão?
Sim. E estamos falando de uma área que tem uma vantagem muito grande: os papéis femininos são feitos por mulheres. A não ser em casos excepcionais, onde propositalmente o papel foi criado para ser feito por um homem. Mas não é por se tratar da classe artística que a coisa funcione de outra forma. Isso já diminuiu bastante, mas não sumiu.
Nesse caso, você acredita que existe um papel social no remake de ''Guerra dos Sexos''?
Eu aprendi que, se você quiser, tudo depende do seu olho. Já vi vários programas de humor, como o ''Casseta & Planeta Urgente!'', por exemplo, que fazia sátiras sociais e políticas fortes e inteligentíssimas. Mas aí você tem aquelas pessoas que só viam aquilo como comédia e as outras que enxergam alguma mensagem por trás.
Se arrepende de não ter se dedicado mais à tevê e menos ao teatro?
Não. Minha trajetória em teatro é o meu xodó, meu tudo! Fiz o que deveria ser feito, não me arrependo de nada. E o público é sempre muito carinhoso comigo.
O que você costuma ouvir nas ruas?
Cada vez mais as pessoas me param e conversam. Acho que esse retorno cresceu um pouco pelo afeto e também pelos personagens de humor que fiz. É muito bonita a forma como o público vem. E eu continuo fazendo as minhas coisas. Como ir ao supermercado, por exemplo. E não estou falando de mercado chique, eu vou ao popular mesmo. Isso facilita também o contato. Uma vez ouvi algo bonito de uma mulher. Ela disse que o que sentia a meu respeito era que eu era uma delas que deu certo. E eu respondi que elas também deram certo. Eu só fiquei conhecida.

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