LÚDICO - Brincadeira é coisa séria
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segunda-feira, 04 de maio de 2009
Adriana Ito<br> Reportagem Local 
Nenhum pai gosta de ouvir do filho que ele passou o dia brincando na escola. E com razão, afinal, a criança frequenta a escola para aprender. E o que ela pode aprender com jogos comuns como o boliche, por exemplo?
De fato, enfileirar as crianças para que cada uma tenha a sua vez de lançar a bola é abrir caminho para a bagunça. Logo a fila estará desfeita, os alunos, dispersos, ficarão conversando, um ou outro não vai respeitar a distância mínima estipulada, entre outros problemas.
Mas e se os alunos tivessem que criar o seu próprio jogo de boliche? Ao encher a garrafa pet (de 600ml) de água, poderiam aprender um pouco sobre reciclagem. Quem conhece o jogo poderia ensinar a quem não conhece como funciona, aumentando a interação e o companheirismo. Ao invés de fila, com um semicírculo todos poderiam acompanhar o desempenho dos colegas.
E é exatamente desse jeito o jogo de boliche na escola Dádivas Educação Infantil. Como a escola trabalha com crianças em idade pré-escolar, consegue explorar ainda mais conhecimentos com a brincadeira. Cada criança escolhe a bola que vai usar: grande ou pequena, pesada ou leve. A distância também não é predeterminada. Assim, com a prática, os alunos vão começando a entender qual delas exige mais força, e sentem sozinhas a necessidade de impor alguns limites para que todos possam jogar de maneira justa.
Este é só um exemplo de como o lúdico pode servir de aprendizado multidisciplinar nas escolas, e para estudantes de diversas faixas etárias. Na Dádivas, todo o ensino é baseado em jogos e brincadeiras comuns, boa parte utilizando-se de materiais recicláveis. ''A diferença entre brincar em casa e brincar na escola está no planejamento, organização e mediação feitos pelos professores'', ressalta a psicopedagoga da escola, Rosângela Lemos Delamuta.
Rosângela aponta que, através do jogo, é possível trabalhar nas crianças as linguagens matemática, oral e escrita, além de levá-las a levantar hipóteses, socializar ideias, ouvir o outro e se fazer ouvir e reconhecer que o outro pode ter um modo diferente de pensar. ''Nós fazemos a criança refletir sobre suas próprias ações e decisões. Assim, ela se torna agente do seu processo de aprendizagem, e ainda tem a oportunidade de interferir no processo de aprendizagem dos seus pares'', constata.
A psicopedagoga lamenta que ainda haja escolas onde esse processo não é permitido. ''Geralmente, privilegia-se a resposta correta, sem dar a oportunidade de aprender com o próprio erro. O erro também é um instrumento de aprendizagem, e não de constatação do próprio fracasso'', aponta.
Outro ponto importante nesse trabalho com as crianças pequenas, segundo Rosângela, é identificar o nível cognitivo em que a criança se encontra. ''Mesmo dentro de uma turma de crianças na mesma faixa etária há diferentes níveis de cognição'', explica, destacando que as escolhas que cada criança faz durante as brincadeiras facilitam essa identificação. ''O educador tem que saber em que estágio a criança está e organizar atitudes de intervenção individualizadas. Para auxiliar nesse trabalho, realizamos estudos quinzenais'', informa.
E, enquanto todo esse processo está acontecendo, para as crianças as atividades são pura brincadeira. Que o diga o pequeno Nicolas Lopes Ferracioli, 5 anos, que adora jogar boliche na escola. ''É superfácil acertar no boliche. Só tem que jogar a bola e pronto'', afirma, sem suspeitar de quanta coisa ele aprendeu fazendo isso.


