São Paulo, 02 (AE) - Autora de uma obra pequena mas coerente (o média "Pequeno Exército Louco", os longas "Que Bom Te Ver Viva" e "Doces Poderes"), Lúcia Murat acrescenta agora mais um título à sua tentativa de discutir e interpretar a realidade brasileira. Desta vez, ele vai às origens, com um filme que discute as relações entre colonizados e colonizadores. O cenário, o Pantanal do século 18. O título, "Brava Gente Brasileira", é retirado de um verso do Hino da Independência.
Lúcia informa que o trailer já está pronto. Mas ela ainda trabalha na montagem do filme que espera estrear em março, no quadro das comemorações dos 500 anos do Descobrimento. "Brava Gente Brasileira" tem tudo a ver: um de seus aspectos mais interessantes diz respeito à miscigenação entre índios e brancos (portugueses) que ajudaram a fundar a identidade da nação brasileira.
É da sala de montagem da Rob, no Rio, que Lúcia fala com a reportagem. Por que um filme que já está na edição final ainda precisa de recursos? "Porque ainda estou em captação, tenho até o fim do ano para captar o dinheiro que me falta", diz a diretora. Ela explica sua opção: não conseguiu captar todo o dinheiro de que necessitava, embora tenha tido apoio do Banespa. Lúcia não se cansa de destacar o quanto esse apoio lhe foi valioso. Mas ainda falta dinheiro. Como tinha poucos recursos e não abria mão de rodar o filme, optou por fazê-lo em super 16 mm
para posterior ampliação na bitola de 35 mm, para exibição comercial nos cinemas. Isto significa uma pós-produção mais cara. Lúcia não tem vergonha de, como diz, "passar o pires" em busca dos recursos que lhe faltam.
Há muito tempo ela escolheu o caminho da polêmica. Antes de se tornar cineasta, foi jornalista, trabalhando em alguns dos principais órgãos da imprensa escrita e televisionada do País. Fez comerciais e filmes institucionais. Como autora, escolheu a política como área de interesse e expressão. "Pequeno Exército Louco" trata da revolução na Nicarágua, "Que Bom Te Ver Viva" mistura documentário e ficção para falar sobre a repressão durante o regime militar, por meio dos depoimentos sofridos e verdadeiros de mulheres que foram torturadas, e "Doces Poderes
mais ficcional e menos documentário desvenda as falcatruas em Brasília, mostra uma campanha eleitoral para discutir o casamento entre imprensa e políticos.
A própria Lúcia, que estudou economia, foi presa política, acusada de pertencer à antiga dissidência do PCB que resultou no MR8. Sofreu na carne a dor da tortura. Sabia sobre o que falava em Que Bom Te Ver Viva". Helena Salem, aqui mesmo no Estado, escreveu certa vez que ela nunca deixou de ser uma guerrilheira. Só trocou as armas pelo cinema, mas continua lutando por aquilo em que acredita - a denúncia das mazelas brasileiras, a construção de uma sociedade melhor e mais humana.
"Brava Gente Brasileira" passa-se em 1778, na fronteira das Américas portuguesa e espanhola. Num local remoto do Pantanal, terra dos índios guaicurus, os portugueses erguem um forte para combater os espanhóis. Os conquistadores terminam entrando em guerra com os índios, que não aceitam a presença dos brancos em suas terras. Esse é o quadro. Em especial, o filme trata do episódio conhecido como "cavalo de Tróia brasileiro" - uma rara vitória dos índios sobre os brancos.
"Os guaicurus souberam usar o choque de culturas para observar o ponto fraco do inimigo", resume Lúcia. A partir daí, a história trata das relações de poder entre homens e mulheres - homens brancos e mulheres índias. Lúcia não pretendeu fazer um épico. O deslocamento da guerra para as relações interpessoais tem a ver com um projeto quase antropológico. O que ela quer é decifrar o comportamento do indígena, o colonizado. Quer tratar de um tema que lhe parece o mais contemporâneo possível - a nossa dificuldade de lidar com o diferente -, mostrando também que o processo de miscigenação não foi amoroso como sugere Gilberto Freyre no seu "Casa Grande & Senzala. Lúcia diz que esse processo foi também violento, uma história de estupros (de mulheres índias pelos colonizadores). Esse enfoque vai dar polêmica. "Espero", ela diz.
Violência na colônia - Participam do elenco, entre outros, Leonardo Villar, Floriano Peixoto, Luciana Rigueira e o ator português Diogo Infante. Ele interpreta Diogo, que representa o iluminismo em confronto com as dificuldades e violência da colônia. "É o nosso ponto de vista de civilizados", explica Lúcia. Descendentes dos guaicurus, os cadiveus, que habitam as mesmas terras alagadas do Pantanal, foram chamados a participar da produção. Lúcia encontrou um garoto, filho de homem branco com uma índia, que lhe pareceu o próprio menino selvagem. "Um garoto encantador, branco, falando cadiveu", conta. Fascinada por ele, reescreveu o roteiro, arranjando-lhe um papel.
Orçado inicialmente em R$ 3 milhões, o filme foi redimensionado para se tornar uma produção mais barata. O orçamento final é de R$ 2,5 milhões (com o lançamento). Como a Lei do Audiovisual lhe permite captar até 70% do total da produção, Lúcia, que já arrecadou R$ 1 milhão, ainda tem cerca de R$ 750 mil para ser captados. Existem empresas interessadas, mas a resposta só virá com a definição do imposto a pagar, no fim do ano. Quem estiver interessado em participar do projeto, por meio da renúncia fiscal, pode entrar em contato com a empresa de Lúcia, a Taiga Filmes e Vídeo, telefone (0--21) 537-0651.

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