Louvado seja o dinheiro Montagem resgata o humor trágico e a atualidade crítica de Friedrich Durrenmatt ReproduçãoDurrenmatt: visão pessimista carregada de personagens e situações bizarras Marcos Losnak De Londrina Especial para a Folha2 ‘‘O mundo fez de mim uma mulher da vida e eu quero fazer dele um bordel’’. Essa célebre frase de Clara Zahanassian, personagem principal da peça ‘‘Visita da Velha Senhora’’, oferece uma idéia do humor trágico do dramaturgo Friedrich Durrenmatt. Um dos mais importantes dramaturgos europeus do século 20, o suíço Friedrich Durrenmatt (1921-1990) pautou seus textos com peculiar sarcasmo que apenas a sociedade moderna foi capaz de criar. Seu ceticismo, uma infindável via de mão dupla entre a comédia e a tragédia, não possui um pingo de fé na força da ação transformadora do homem. Para ele, ‘‘o mundo é algo de monstruoso, o enigma de um mal que no entanto temos que aceitar e perante o qual não devemos capitular’’. A dramaturgia de Durrenmatt possui um estilo altamente pessoal. Utiliza elementos de Bertolt Brecht (1898-1956) juntamente com a estética do Teatro do Absurdo. Com uma visão pessimista, carregada de personagens e situações bizarras, não crê numa solução para a humanidade contemporânea, seja em nível coletivo ou individual. Sua opção crítica é tratar com humor cínico a existência moderna, apresentando as misérias humanas com um sorriso nos lábios. Ou seja, tragicomédia. A atualidade da crítica realizada por Durrenmatt em ‘‘A Visita da Velha Senhora’’ é assustadora. De acordo com ele, o dinheiro continua – e pelo visto continuará – sendo um poder absoluto. Nos dias de hoje a corrupção se tornou uma bala a ser chupada e justiça e injustiça podem ser compradas em feiras livres. Durrenmatt afirmava que nesse contexto social, apenas o cômico faz sentido: ‘‘Em nosso tempo é extremamente cruel imaginar que há culpados ou responsáveis. Todos os homens são inocentes e tudo acontece sem a intervenção de ninguém. A culpa é coletiva e atávica, alguma coisa que foi inexoravelmente herdada através de séculos e gerações. Essa é a nossa sorte e não a nossa culpa. E no fim das contas, todos os homens estão condenados à morte.’’ ‘‘A Visita da Velha Senhora’’ teve lendária montagem brasileira, em 1962, com Cacilda Becker no papel de Clara, Sérgio Cardoso no papel de Schill e direção de Walmor Chagas. Chegou a ser transformada em filme por Hollywood (com Ingrid Bergman e Anthony Quinn) mas a versão deturpou todo a história original. O império hollywoodiano não foi capaz de digerir a sarcástica crítica do dramaturgo suíço. - Autor de textos como ‘‘O Casamento do Senhor. Mississippi’’, ‘‘Os Físicos’’, ‘‘Um Anjo Vem à Babilônia’’, ‘‘Frank V’’, ‘‘Seria Cômico Se Não Fosse Trágico’’, Durrenmat começou sua carreira como pintor e cenografista. Começou a escrever para conseguir algum dinheiro. Redigiu romances policiais, textos para rádio-teatro e esquetes para shows de cabarés. Sua estréia em textos teatrais teve início em 1947, com ‘‘Está Escrito’’. Seu último texto, ‘‘Vale do Caos’’, escrito pouco antes de sua morte, é um romance repleto de sarcasmo em que Durrenmatt coloca todos os ingredientes de seu estilo num só espaço. Publicado no Brasil em 1991 pela Editora Companhia das Letras, narra episódios ocorridos num hotel/balneário de uma pequena cidade. Durante o verão o hotel hospeda ricos que pagam fortunas para se sentirem pobres e, assim, conseguirem um espaçoso terreno no céu após a morte. Friedrich Durrenmatt, em seus romances e textos teatrais, faz rir para não enforcar.

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