Loucura pouca é bobagem
PUBLICAÇÃO
sábado, 21 de fevereiro de 1998
Antônio Mariano Júnior 
Milton DóriaCarlos Alberto da Silva, o Homem-Megafone: já me chamaram de louco e até de bicha, mas eu não ligo para os ignorantes, sou profissionalO modelito: maiô florido, um colete com motivos indianos e um chapéu com dois respeitáveis cornos. Chifrão mesmo! Quem nunca viu antes inevitavelmente vai virar o pescoço tão logo cruzar a figura pelas praias ou calçadas da orla marítima de Camboriú. E é bem capaz de colocar as mãos na cintura e soltar um risinho debochado ou cínico. Já quem o conhece de outros carnavais, aliás, de outras temporadas passa batido pois sabe de quem se trata. Quer dizer, não tão batido porque é impossível pelo menos não passar os olhos rápidos para ver como essa criatura simpática está vestida desta vez.
É Carlos Alberto da Silva, o Carlinhos, que há quase dez anos se transformou numa das figuras mais conhecidas do balneário. Sua atividade, garoto-propaganda. Ou, como ele mesmo se auto-intitula, o Homem-Megafone. Que fala mais que o homem da mala e a mulher dos queijos. Também pudera: Carlinhos antes de mais nada é um comunicador. Eu sou um personagem, cara- avisa o dito cujo entre sorrisos, fartos goles na Coca-Cola e vários psius aos conhecidos que passam ao seu redor enquanto dá entrevista.
Milton Dória
Toda temporada de verão lá está Carlinhos em Camboriú anunciando para cima e para baixo os produtos e/ou serviços de seus clientes. Atualmente está com quatro campanhas, entre elas a da limpeza pública e a da danceteria Whiskadão. E faz isso com um bom humor inesgotável. Eu gosto de me comunicar com o público porque o público é a minha imagem - diz ele. Morou na filosofia?
É claro que o fato de se vestir com maiô chama a atenção. Mas em nenhum momento o estilo soa grotesco ou mesmo apelativo. É porque Carlinhos tem uma qualidade imprescindível a qualquer comunicador: carisma. Às vezes lhe falta também um pouco de modéstia: Vocês da Folha vão vender jornal pra caramba, cara, por causa dessa minha entrevista.
Que seja. O fato é que esse pernambucano de 38 anos é uma figura querida pelos veranistas de Camboriú. Ele é igual Minas Gerais: quem o conhece não o esquece jamais. Simpatia é um dom que Deus dá a poucos. Sou pobre, mas tenho honestidade e isso é uma honra que carrego- avisa.
A rotina de trabalho do Homem-Megafone começa às 9 horas e prossegue até às 14 horas. Uma pausa para o almoço e um descanso para a voz - rouca - e retoma as atividades às 16 horas e que podem ir até meia-noite, dependendo da clientela. Por hora chega a cobrar de R$ 30 a R$ 50, dependendo do produto. Diz ele que já chegou a faturar, em outras temporadas, R$ 6 mil. Em compensação nesta... Essa temporada tá fraca, uma porcaria - informa.
Ah, tem mais: outro meio de faturamento de Carlinhos vem de fotos que tira com turistas. Cobra R$ 1,00. Mas, garante: se o sujeito não tiver grana ou ele simpatizar sai de graça. Ainda, segundo ele, já chegou a faturar R$ 600.
Vaidade artística é o que não falta ao comunicador. Já perdeu as contas de quantas vezes concedeu entrevistas ou apareceu - mesmo que num zás - em programas de televisão como o Flash e o Jornal Nacional. Fama é bom, viu cara. Já saí até em revistas e TVs estrangeiras- garante.
Pois muito bem. A vida de Carlinhos nunca foi um palco iluminado. Como conta, saiu de casa aos seis anos para viver nas ruas porque era maltratado pelo padrasto. Uns tios o acolheram temporariamente o que fez com que ele não descambasse para a marginalidade. Passei fome, mas nunca roubei porque era muito querido em Pernambuco e as pessoas me ajudavam- lembra.
Para o Sul, veio quando a maioridade chegou. Morou em diversos locais e trabalhou em muitas atividades. Mas foi aos 23 anos que surgiu a primeira chance de mostrar seus dotes de garoto propaganda. Foi em Florianópolis, numa loja de Calçados. Vestiu-se de palhaço. Não chamou a atenção. Daí veio o estalo. Coloquei uma saia bem curtinha e o meu ibope cresceu- relembra.
Daí em diante, nunca mais abandonou os trajes femininos. Como está na praia - ele permanece de dezembro a março em Camboriú - usa maiô. Em Floripa, vestidos. No inverno eu coloco um vestidinho mais comprido para não sentir frio nas pernas- relata. Obviamente, o modo de se vestir rende comentários, às vezes, nada elogiosos que ele tira de letra. Já me chamaram de louco e até de bicha. Mas não dou bola para essas pessoas ignorantes porque sou profissional- avisa.
Carlinhos faz escola. Muitos são os imitadores. Em Camboriú, por exemplo, tem um certo sujeito que anuncia seus produtos usando um chapéu com chifres. Ih, cara, não ligo para isso não. Ninguém toma meu lugar. Tenho até fã clube- analisa.
Um orgulho: mesmo que o mar não esteja muito para peixe, Carlinhos diz que já foi tão cantado em verso e prosa que são os clientes que o procuram e não vice-versa. E não recusa nada, nada. Tanto que, para esse ano, já está de olho nas eleições. Alguns candidatos, garante, já o abordaram com boas propostas para que coloque a boca no trombone, aliás, no megafone a seu favor.
Entre eles, o senador catarinense Esperidião Amim que anuncia aos quatro ventos ser candidato ao Governo do Estado. Aliás, Carlinhos já fez outras campanhas para Amim. Eu garanto: se depender de mim, ele ganha novamente- diz. A família Amim, pelo jeito, tem muito carinho pelo comunicador. Tanto que, como informa, o primeiro megafone foi dado por Ângela, esposa de Esperidião.
Bem, se deixar a conversa com Carlinhos vai longe. É preciso ficar bem atento já que ele corta a linha de raciocínio zilhões de vezes para contar casos ou simplesmente para conversar com alguém que passa do seu lado. Uma única pergunta o faz pensar um pouco: se ele é feliz. Sou feliz, sim, faço o que gosto. E quer saber mais, eu me considero um cigano porque não gosto de parar muito num lugar- diz. Sozinho? Sou solteiro, não sirvo para me casar. Ó, vou dizer uma coisa: eu não paro com mulher, tenho só paquerinhas. É melhor assim. Ok, Carlinhos, ok!!


