Como todo contador de histórias compulsivo, Billy Wilder tem tendência ao exagero. Helmuth Karasek, que assina com o mestre seu livro de memórias - ‘‘Billy Wilder, e o Resto É Loucura’’ , que o diga. Wilder contou-lhe que Marilyn Monroe não era capaz de repetir sem errar um texto de quatro palavras diante das câmeras. ‘‘Where is the bourbon?’’ - era a fala da atriz em ‘‘Quanto mais Quente Melhor’’. Teve de ser repetida 80 vezes, disse Wilder. Na última entrevista que Karasek havia lido dele, tinham sido 63 vezes. Impossível saber qual a versão certa.
É a história de um grande contador de histórias. Não se sabe até que ponto ele foi fiel à verdade ou se comportou como um mitômano, acrescentando detalhes que só somam ao seu mito pessoal. Seja como for, mesmo com algumas ressalvas quanto à absoluta veracidade de situações e afirmações, o livro é imperdível. Leitura obrigatória para todo cinéfilo que se preze. Está saindo no Brasil pela Dórea Books and Art, DBA.
Wilder conta tudo. Suas recordações, cheias de humor e ironia, passam pela Viena do início do século, pela Berlim dos loucos anos 20 e pela Hollywood da era de ouro. Wilder não conviveu apenas com celebridades do cinema. Como repórter, foi enviado para entrevistar ninguém menos do que Sigmund Freud. Ele conta que chegou ao apartamento de Freud, na Berggasse, em Viena. Deu seu cartão à empregada e ficou esperando pelo pai da psicanálise. Pelo vão da sala de espera, viu o escritório em que ele atendia seus pacientes e o célebre divã - que era muito menor do que imaginara.
Abre-se uma porta e surge o próprio Freud, também menor do que o jovem Billy havia imaginado. Pega o cartão, pergunta se Wilder é jornalista e não se preocupa em indagar o motivo da visita (uma enquete sobre Mussolini e a nova forma de governo que ele havia introduzido, o fascismo). Quando Wilder lhe respondeu: ‘‘Sim, professor’’, apontou com o dedo e disse: ‘‘A porta é ali’’. Rua. Até hoje Wilder considera mais honroso ter sido enxotado por Freud do que convidado para jantar por Kadafi.
Wilder dirigiu dois dos melhores filmes de Marilyn - ‘‘O Pecado Mora ao Lado’’ e ‘‘Quanto mais Quente Melhor’’. Fala bastante sobre a estrela no livro. Abre o jogo sobre a velha Hollywood, que conheceu tão bem - e retratou de forma tão cruel no clássico ‘‘Crepúsculo dos Deuses’’. Nascido em Viena, em 1909 (está quase com 90 anos), Wilder trouxe para o cinema americano a visão amarga e cínica de outros diretores nascidos na mesma cidade: Otto Preminger e Fritz Lang. De Viena a Hollywood, passando por Berlim, Wilder revela tudo: anedotas, lembranças, revê sua filmografia e ainda apresenta fotos pouco conhecidas, quando não inéditas (pelo menos até a primeira versão americana do livro, há cinco anos). Uma delas o mostra menino, vestindo saia. Os pais queriam uma menina. Quando veio o pequeno Billy, criaram-no com vestidinhos. Se houve trauma, Wilder não confessa, mas o fato deve ter sido decisivo para que ele desenvolvesse o tema do travesti em ‘‘Quanto mais Quente Melhor’’ e criasse o célebre bordão de Joe E. Brown no mesmo filme: ‘‘Nobody’ s Perfect.’’
Ninguém é perfeito. Wilder, com certeza, não é - mas criou muitos filmes próximos da perfeição, do film noir à comédia romântica e satírica. Ele lembra a colaboração com Ernst Lubitsch, o mesmo do humor, para quem escreveu ‘‘Ninotchka’’ (com Greta Garbo). Reavalia o trabalho com os dois roteiristas que marcaram sua obra: Charles Brackett e I.A.L. Diamond. Com o primeiro fez os clássicos noir do início de sua carreira: ‘‘Farrapo Humano’’ e ‘‘Crepúsculo dos Deuses’’. Tentou fazer também ‘‘Pacto de Sangue’’, mas Brackett não aceitava o retrato dúbio dos personagens adaptados do livro de James Cain. Foi substituído por Raymond Chandler. Com Diamond, foi a descoberta do humor. Os dois compartilhavam a mesma visão ácida do homem e do mundo. Produziram obras-primas.
Wilder foi sempre um colecionador compulsivo. Em 1933, quando ainda não tinha 30 anos, o então roteirista da UFA deixou para trás sua primeira coleção, ao emigrar para os Estados Unidos. A coleção era composta basicamente por cartazes. Ele sempre investiu um terço do que ganhava em arte. Em 1989, levou sua coleção a leilão na Christie. O quadro mais valioso de que se separou foi um Picasso de US$ 7 milhões, ‘‘Retrato de Mulher’’, um retrato da primeira mulher do pintor, Olga Koklowa. Com o tempo é difícil ficar sentado sob US$ 7 milhões, explicou Wilder. Não era só isso: só com o seguro da coleção todo ano tinha de desembolsar exorbitâncias.
Há 17 anos sem filmar (‘‘Amigos, Amigos, Negócios à Parte’’ é de 1981), Wilder leva a vida na flauta com a mulher, Audrey, cujo braço, não mais que isso, aparece em ‘‘Farrapo Humano’’. O amigo Steven Spielberg há anos tenta convencê-lo a terminar o roteiro de ‘‘Fade In’’, o filme que Wilder provavelmente jamais realizará - sobre o holocausto. Com seis Oscars na estante, mais prêmios em Cannes, Veneza e Berlim, Wilder confessa que a única coisa de que se orgulha é o seu nome ter aparecido duas vezes na coluna de palavras cruzadas do New York Times: uma vez no 17 horizontal e outra no 21 vertical.
• ‘‘Billy Wilder, e o Resto É Loucura’’ - Depoimento a Hellmuth Karasek. Tradução de Flávia Buchwaldt. Editora DBA, R$ 35,00

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