CABUL - Foram estrelas nos anos 70, estudaram em Moscou e na Índia, montaram produtoras rentáveis, levaram seus filmes a festivais e rivalizaram com o cinema iraniano: são diretores, atores, e produtores afegãos que lutam para recuperar o cinema nacional.
Mohamed Akram Jurami tem 78 anos e foi um dos atores afegãos mais populares dos anos 70. Uma revista de cinema editada no Paquistão mostra uma foto sua da época, charmoso, mas com cara de vilão: ‘‘sempre me davam personagens protagonistas, e sempre eram más, comandantes, policiais e coisas assim’’.
Hoje é um velhinho sem dentes, mas cheio de energia, com ar perfeito de homem de vida intensa, como a do falecido Francisco Rabal, do argentino Federico Luppi ou do francês Jean-Louis Trintignant.
‘‘Do que seja, quero voltar a trabalhar, o cinema é maravilhoso. Eu cheguei a trabalhar com Peter Brook’’, o diretor inglês, em seu filme ‘‘Meetings with remarkable men’’ (1979), rodado no Afeganistão.
Jurami viveu a ‘‘época de ouro’’ do cinema afegão, até o final do reinado de Mohamed Zahir Shah (1933-1973) e a presidência de Mohamed Daud (73-79).
Então, ‘‘depois de uma noite de rei eu pude dizer na cara de meus colegas iranianos que seus filmes não valiam nada e se aguentavam apenas pelas pernas das mulheres’’.
Logo chegaram os soviéticos, e Nazir Ahmad Fazli, pôde estudar no instituto cinematográfico Odessa, de Moscou.
‘‘Serviu para que eu aprendesse enormemente, mas também foi meu enterro profissional quando os mujahedines tomaram o poder’’, em 1992, após expulsarem os soviéticos e acabar com o governo comunista de Najibulah.
Acusado de comunista, Fazli foi demitido de seu cargo de responsável da cinematografia da televisão afegã, que agora se recuperou com a derrota dos talibãs e a instauração do governo de Hamid Karzai.
Nos arquivos da televisão foram encontrados 30 filmes afegãos. Os talibãs, que proibiram, entre tantas coisas, a televisão e o cinema não destruíram os filmes.
No entanto, ‘‘muitas fitas estão deterioradas por causa do frio, e outras não podemos protegê-las porque há violações, ou as protagonistas são mulheres, um tabu que não foi expressamente rompido pelas novas autoridades.
‘‘Estão elaborando um regulamento, não prometeram que chegará rápido, mas suponho que as coisas mudarão’’, precisou.
No fim do mês, estará pronta a primeira produção local para a televisão, realizada em condições precárias, a ponto de a maioria dos participantes ter tido que dar dinheiro.
É ‘‘O especulador’’, centrado em um malvado que aumenta abusivamente os preços dos alimentos, condenando o povo à fome, uma história que remete à situação afegã.
‘‘Faço filmes didáticos porque a situação as exige’’, explicou Sayed Faruk Haybat, o diretor.
Haybat dirigiu oito filmes entre 1984 e 1995, todas elas com o tema das drogas de fundo. Durante a guerra civil (1992-1996) oito pessoas, homens, mulheres e crianças, morreram em uma de suas turnagens quando um dos seus rivais lançou contra sua equipe um foguete.
Haybat trabalhou com Said Sayaf e Said Mirán na produtora Shafak films, fundada nos anos 70 e que sobreviveu até quase finais dos anos 80.
Said Sayaf era assistente de direção e agora se dedica a ensinar atuação, direção, fotografia e todos os elementos de filmagem para pessoas todas as idades. Tem um grupo de 20 alunos na Associação de Jovens Cinegrafistas de Cabul.
A escassez de meios é dramáticas para todos eles e todos se dirigem aos jornalistas para que chamem a atenção ‘‘sobre a Europa e a França’’, especialmente, porque são amantes dos filmes destes países’’, disse Mirán.

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