De onde vêm expressões como ‘‘pra inglês ver’’, ‘‘feito nas coxas’’ e outras consideradas ‘‘do arco da velha’’? Enquanto muitos brasileiros, a cada dia, têm menos intimidade com a língua pátria, na contramão da história, tem gente que quer dar nome aos bois, sobrenome e até endereço. ‘‘O homem só existe porque existe a linguagem’’, afirma o professor Nailor Marques Junior, 34 anos, que leciona literatura brasileira, redação e interpretação em Maringá, 15 anos só em cursinho. Ele é um apaixonado pelas palavras. Chega a colecioná-las. Autor de três livros de poesias - o mais recente é ‘‘O Amor é o Que Não ɒ’, lançado em 97, pela editora MeioDia -, sempre que pode dá uma fugidinha até a sua biblioteca e pega um dicionário para ler, como se fosse um romance. ‘‘Dou ótimas gargalhadas, é um passatempo que me diverte muito’’.
Marques Junior tem uma coleção de dicionários exóticos, de tudo o que se pode imaginar, e está criando um que deve ser publicado ainda este ano, ‘‘Pequeno e Inútil Dicionário das Origens das Expressões’’. Ele começou a listar expressões populares meio sem querer e recebeu algumas contribuições de amigos. Agora está com mais de 200 expressões de origens no mínimo curiosas. Ele diz que pretende encontrar uma editora de grande circulação para ajudar a concluir o projeto até o final deste ano.
‘‘Não tenho a intenção de fazer algo científico pois não sou um etmologista. Esse dicionário é só para colorir a vida’’, diz. Marques sempre se interessou pela origem das expressões. Ele adora mergulhar no universo das palavras, nessa trama infinita que é a linguagem. Ele concorda com Malarmée que dizia que o ‘‘nome reduz o objeto’’. ‘‘Eu tenho consciência de que o nome da coisa não é a coisa’’ mas o culto da linguagem é a chance que o ser humano tem de dizer o quanto é mágico; quanto a vida é legal de se descobrir’’.
Entre as pérolas pesquisadas por Marques Junior estão expressões como ‘‘feito nas coxas’’ que apesar do que muitos imaginam não tem nada de obsceno. ‘‘Esta expressão surgiu no tempo do Brasil Colônia quando os escravos trabalhavam fazendo telhas portuguesas. Eles amassavam o barro e moldavam as telhas nas coxas. Como cada homem tinha coxas diferentes de outros, as telhas nunca tinham as mesmas dimensões o que dificultava um encaixe perfeito na hora de cobrir a casa. Portanto, ‘feito nas coxas’ virou sinônimo de algo imperfeito, executado de qualquer jeito’’, explica Marques Junior.
A paixão do professor pela língua portuguesa e por dicionários é algo que lhe dá muito prazer. Trata-se de uma curiosidade essencial que ele acredita que as pessoas deveriam ter pela linguagem, pelas palavras.‘‘A história da humanidade é a da inteligência’’, diz. ‘‘Ninguém sabe quem era o amigo pobre que fazia os sapatos de Sócrates. Mas o que Sócrates verbalizou, Platão escreveu. A linguagem é mais importante do que a mensagem que pode ser alterada pelo código. O que você diz não é tão importante como o modo com que você diz’’.
Entre os dicionários que Marques coleciona estão exemplares sobre palavrão, erros da língua portuguesa, dicionário africano de umbanda, de expressões em tupi-guarani, dicionário de geografia, de símbolos, de expressões em latim usadas no Brasil, de termos literários, expressões da Bíblia, mitologia grega, sinônimos, antônimos, verbos, entre outros. ‘‘Quanto mais a gente estuda mais fica louco para saber, descobrir as coisas’’, diz Marques que pelo jeito conseguiu passar um pouco dessa inquietação intelectual para parte dos 500 alunos que atende por ano no seu Ateliê de Redação. ‘‘Durante as aulas eu comento com eles erros da imprensa, da literatura, descontruímos textos, reconstruímos, criticamos e analisamos forma e conteúdo. Quando comento as origens das expressões eles adoram e perguntam mais’’, acrescenta.Marcos NegriniO professor
Nailor
Marques
Júnior
tem uma
coleção
de
dicionários
exóticos
e pretende
lançar
mais um:
‘‘O Pequeno
e Inútil
Dicionário
das Origens
das Expressões’’O professor
Nailor Marques
Junior,
que pesquisa
palavras e
expressões,
vai lançar
este ano um
dicionário
curioso

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