Los Angeles mostra estudo sobre morador de rua
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sábado, 02 de outubro de 1999
Por Renata Saraiva 
São Paulo, 03 (AE) - Em São Paulo eles são os sem-teto. Em Los Angeles, os homeless. Em Tóquio, "homeressu", uma versão ajaponesada do termo, já que não existe uma palavra nativa para designar o morador de rua no Japão, pois o fenômeno é recente - nasceu nos anos 90, com a crise econômica.
Um estudo, realizado pela filósofa e estudiosa de estética Maria Cecília Loschiavo dos Santos, mostra de que maneira os moradores de rua de três cidades (São Paulo, Tóquio e Los Angeles) reutilizam materiais jogados no lixo por camadas mais privilegiadas da população para construir a própria arquitetura e identidade.
O registro fotográfico de sua pesquisa está na exposição "Castoff/Outcast - Living on the Street", que fica em cartaz até dezembro no Fowler Museum of Cultural History, na Ucla, Los Angeles, com três outras mostras cujo tema é a reciclagem de materiais em arte e objetos. A exposição segue depois para Tóquio e algumas cidades européias, antes de chegar ao Brasil, no segundo semestre do ano 2000.
Autora de seis livros sobre design e mobiliário brasileiros, Maria Cecília decidiu abandonar o universo das casas burguesas para compreender uma das facetas mais dramáticas dos domicílios contemporâneos: a casa de rua.
"O interesse nasceu em 1994, quando comecei a notar que a comunidade instalada no viaduto que liga as avenidas Dr. Arnaldo e Paulista, em São Paulo, utilizava diversos móveis de designers brasileiros famosos", conta.
O olhar sobre a arquitetura dos moradores de rua foi inédito no pós-doutorado que Maria Cecília desenvolveu em Ucla, entre 1995 e 1996. "Havia muitos estudos sobre saúde, territorialidade e geografia, não sobre arquitetura", diz. Dados oficiais do governo americano estimam que existam 33 mil homeless em Los Angeles. A maior parte é composta por trabalhadores da construção civil que ficaram desempregados. "Há ainda muitos veteranos de guerra que recebem uma pensão do Estado e não conseguem adaptar-se às regras dos abrigos públicos."
"Em Los Angeles, assim como em Tóquio e São Paulo, existe uma verdadeira cidade de papelão e de plástico", narra a pesquisadora. Objetos comuns nessas casas, que algumas vezes têm dimensões próximas à do corpo de seu habitante, outras chegam a ter dois cômodos, são os brinquedos. "Bonecas e ursos de pelúcia transformam-se em bibelôs mesmo em casas que não têm crianças." Com exceção de São Paulo, a população entrevistada por Maria Cecília é predominantemente masculina e solitária.
Em Tóquio, onde se estima a existência de 8 mil moradores de rua, plásticos usados para embalar material da construção civil, e que depois vão para o lixo, são sustentados por tubos comumente usados para erguer bunners e faixas publicitárias. Do lixo vêm também aparelhos eletroeletrônicos, como rádios e televisões, que podem ser reutilizados em casas construídas sobre calçadas, graças a uma operação criada pelos homeless para aproveitar energia das instalações públicas.
Fiscalização - As habitações informais japonesas concentram-se em parques, avenidas ou estão à margem de rios, como o Rio Sumida. A comunidade do Rio Sumida construiu casas relativamente grandes (algumas têm dois cômodos) sobre uma calçada cuja extensão é toda acompanhada de um muro. Mensalmente
algumas horas antes da fiscalização municipal - esta é anunciada por meio de um anúncio fixado no muro -, eles desmontam as edificações de plástico e papelão, apóiam uma escada sobre o muro e transferem o material para o outro lado. Passada a fiscalização, é tudo colocado de volta. "Essa comunidade é quase toda composta de trabalhadores da construção civil que perderam emprego na crise econômica que o Japão começou a viver a partir de 1995", explica a pesquisadora. Uma outra comunidade, instalada nos corredores da estação Shinjuku de metrô, empregou o trabalho de pintores que transformaram as edificações em verdadeiras obras de arte. "Infelizmente, não pude ver de perto as casas, pois eles foram expulsos e hoje vivem em um parque, mas pude ter acesso às fotos, que estão na exposição", conta Maria Cecília. "O condomínio era tão sofisticado que os moradores aproveitaram números estampados nas colunas sustentadoras da estação para instalar suas casas e assim ter um endereço", explica a professora, que usa o termo condomínio para todos os conjuntos de casas vistos por ela.
Maria Cecília pretende continuar suas pesquisas em Paris e em cidades da ásia e da áfrica. Não está preocupada em saber as diferenças entre os homeless dos países pobres e dos países ricos, embora muitos se perguntem como pode haver moradores de rua em cidades como´Tóquio, Los Angeles ou Paris. "O que me interessa é investigar a extraordinária criatividade que o ser humano tem para suprir suas necessidades básicas."


