Ela detesta a palavra monólogo. Prefere dizer ‘‘um diálogo comigo mesma’’. Ansiosa por mostrar seu primeiro trabalho no gênero, a atriz paulistana Iara Jamra está pronta para encarnar sua mais nova personagem no espetáculo ‘‘O Caderno Rosa de Lori Lamby’’. A estréia acontece hoje, no sexto dia do 8º Festival de Teatro de Curitiba. O texto é da consagrada romancista Hild Hilst. A direção é de Bete Coelho.
O espetáculo, uma adaptação da provocativa, cômica e comovente obra de Hilst, será encenado no Teatro Paiol, onde o público poderá conferir bem de perto a história de Lori, uma garotinha de oito anos que relata suas fantasias sexuais em um caderninho cor-de-rosa.
Iara Jamra conta que no livro de Hilst o pai da menina é um escritor de talento - porém falido - que se propõe a escrever histórias pornográficas para ganhar dinheiro. Na intenção de ajudar o pai, a menina começa a relatar - à sua maneira - temas sérios e polêmicos, além de estripulias eróticas. ‘‘Ela lê essas coisas do pai e escreve tudo no caderninho rosa como se fossem suas próprias fantasias’’, explica.
E por falar em polêmica, é exatamente isso que este espetáculo pode render. ‘‘Não é uma coisa de inocência. É muito mais a inteligência de uma criança’’, revela Iara, destacando que a montagem choca em primeira instância, mas depois fica engraçada e até poética. Em síntese, o texto brinca com a ingenuidade de uma menina.
A escolha pela obra de Hilda Hilst foi da própria Iara Jamra. Ela leu o texto e decidiu que queria montá-lo. A adaptação ficou a cargo de Reinaldo Moraes, que selecionou trechos mais importantes do livro para dar ao espetáculo mais dinâmica. ‘‘Fui então à casa de Hilda Hilst em Campinas. Ela não me conhecia. Apresentei a primeira versão e ela não gostou, mas aprovou a segunda’’, conta.
Mesmo depois do aval da autora, o projeto foi interrompido. Iara Jamra foi trabalhar com o diretor Zé Celso Martinez Correia no espetáculo ‘‘Cacilda’’. Foi durante esta montagem que a atriz descobriu a intenção de Bete Coelho de montar o mesmo texto com Daniela Thomas. Em dezembro, a atriz apresentou, em caráter experimental, 20 minutos da montagem no Projeto Mundão, em São Paulo.
A versão multimídia da peça (que incluía vídeo e computador) foi substituída por Bete Coelho por outra que valorizasse mais a dramaturgia. No palco, uma grande cama. Nada mais. O suficiente para o universo de Lori. Sem demais recursos cênicos - apenas iluminação - a montagem destaca a personagem e seu caderninho pendurado no pescoço. Iara Jamra pretende passar seu recado em enxutos 40 minutos.
Esta é uma experiência diferente na carreira da atriz. Como ela diz, sempre fez de tudo um pouco; mas é na comédia que está firmada sua experiência. ‘‘Eu tenho uma bagagem muito mais de comédia. Agora vou experimentar uma coisa diferente. Teatro de verdade, dramaturgia’’, revela.
Questionada sobre seu afastamento das novelas e demais produções televisivas, ela brinca: ‘‘Eu tô desempregada mesmo!’’ Esse seria o motivo da sua ausência na telinha, porque, se dependesse da atriz, ela bem que estaria na ativa. ‘‘Primeiro porque eu preciso trabalhar e, depois, porque eu gosto de fazer novela’’, completa. Iara explica que seus contratos com as TVs são temporários, por produção. Os últimos trabalhos foram a novela ‘‘O Rei do Gado’’ (que está sendo reprisada à tarde) e a minissérie ‘‘Hilda Furacão’’, ambas da Rede Globo.
• O Caderno Rosa de Lori Lamby, de Hilda Hilst. Monólogo com Iara Jamra. Hoje, às 21h30, e amanhã, às 20 horas, no Teatro Paiol. Adaptação: Reinaldo Moraes. Direção: Bete Coelho. Cenografia e figurino: Daniela Thomas.

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