Cinco jovens encarceradas dentro da própria casa, privadas do contato com o mundo exterior, reprimidas no amor e na sexualidade. Ao mesmo tempo vítimas e carrascos de si mesmas. Tudo porque a matriarca decretou, com a morte do marido, um luto de oito anos para a família, tornando sua casa um reflexo das paixões, desejo, ódio, autoritarismo, tensões e angústias.
A história, passada na Andaluzia do século passado, foi retratada por Federico García Lorca (1898-1936) em ''A Casa de Bernarda Alba''. Esse universo repressor foi resgatado e aproximado da realidade de Minas Gerais na montagem do grupo Oficcina Multimédia, de Belo Horizonte. A encenação da tragédia será levada ao palco do Cine-Teatro Ouro Verde, em única apresentação hoje, às 20h30, pelo 36º Festival Internacional de Londrina (Filo).
O texto foi escrito em 1936, pouco antes de García Lorca ser assassinado na Guerra Civil Espanhola. A obra tornou-se um clássico da dramaturgia universal.
Angústias, Madalena, Amélia, Martírio e Adela vêm sua casa ser transformada em uma prisão. Esse ambiente reprimido desencadeia paixões proibidas que podem gerar conflitos de proporções imprevisíveis. Tudo porque a filha mais nova, Adela, não está disposta a aceitar o sofrimento imposto pela mãe, nem abrir mão da sua vocação para a liberdade.
Para essas mulheres, sufocar a virgindade ou romper com os malefícios da esterilidade são modos de comunhão existencial e de salvação, cujas possibilidades estão centradas na figura de um homem. ''Adela se expõe à morte e liga sua possibilidade de libertação ao homem, que é quem propicia o cumprimento do ciclo da fertilização'', comenta a diretora Ione de Medeiros. Na montagem, algumas das personagens femininas são interpretadas por atores.
A concepção do Oficcina Multimédia acentua a aproximação dos universos da Andaluzia e de Minas Gerais, ao ressaltar características semelhantes das duas culturas. ''Existe uma empatia grande. Ambas são parecidas. O povo, a religiosidade, o universo do realismo fantástico são muito próximos''.
O grupo trabalhou a integração de diversas linguagens artísticas para criar a atmosfera desejada. O cenário tem uma estrutura definida por um jogo cênico, o que define, de acordo com a direção, uma visão cubista fiel à própria linguagem de Lorca em seus poemas. ''A Casa de Bernarda Alba é um quebra-cabeças, com um lado lúdico de micropeças que vão se juntando'', diz Ione de Medeiros, também responsável pela concepção cenográfica.
Portas e janelas trazidas de Ouro Preto formam um cenário que permite um jogo com os atores. A direção trabalhou a idéia de cenário móvel, tornando o espetáculo uma espécie de balé mecanizado. ''Os atores movem o cenário dentro de uma partitura cênica muito precisa'', antecipa. Ione de Medeiros diz também que essas portas e janelas são um ícone marcante na montagem. ''São como fronteiras. Ou abrem para o mundo ou te fecham''.
Já a trilha sonora, também de Ione de Medeiros, foi construída a partir de sons orientais, numa referência à tradição mourisca na cultura hispânica e bem próximas da música brasileira. ''A percussão oriental bate muito com nosso samba. Também usamos violões espanhóis, cuja construção melódica tem muito a ver com a modinha mineira''. O som de sinos gravados da Igreja São Francisco de Assis de Ouro Preto pontua todo o espetáculo.
Imagens de vídeo da cidade de Ouro Preto completam a concepção, representando o lado de fora da casa de Bernarda Alba. Revelam a crueza e as promessas de um mundo cheio de mistérios ao qual essas mulheres não têm acesso.
Ione de Medeiros concebeu ''A Casa de Bernarda Alba'' para palco italiano (tradicional), com o intuito que o espectador se transforme em um voyeur e mantenha o distanciamento da história. ''Lorca tinha uma casa vizinha à sua em que moravam mulheres vestidas de preto e uma mãe opressora. Escondido, ele assistia a tudo que acontecia lá dentro. O voyeurismo foi sua inspiração para escrever a tragédia'' conta.
O grupo Oficcina Multimédia foi criado em 1977 e pertence à Fundação de Educação Artística de Belo Horizonte. Ione de Medeiros está à frente da companhia desde 1983. Atualmente, o elenco do grupo é formado por jovens de 19 a 26 anos.
SERVIÇO:
''A Casa de Bernarda Alba'' Espetáculo do grupo Oficcina Multimédia, de Belo Horizonte. Direção: Ione de Medeiros. Elenco: Dulce Coppedê, Francisco César, Leandro Acácio, Juliana Guerra, Jonnatha Fortes, Marcos Ferreira, Rafael Otávio, Henrique Mourão, Escandar Curi e Mônica Ribeiro (participação especial). Trilha sonora, concepção cenográfica e figurinos: Ione de Medeiros. Iluminação: Leonardo Pavanello. Coordenação corporal e assessoria cênica: Mônica Ribeiro. Duração: 2 horas.

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