Estar em constante descoberta faz parte da trajetória de Dira Paes. Prestes a completar 30 anos de carreira – em 2014 –, a intérprete da Lucimar de "Salve Jorge" ainda se considera uma novata em alguns aspectos. Isso porque pretende experimentar cada vez mais diferentes perfis de personagens, conhecer novos lugares e ter contato com outras línguas. Tudo através de seu trabalho de atriz. "Apesar de veterana, acho que sou caloura em vários pontos em que eu possa vir a desenvolver na minha concepção e no meu desejo artístico", avalia.
Ao fazer uma análise dos anos dedicados à interpretação, Dira se diz contente. Construiu um caminho diferenciado, voltado para o cinema em grande parte do tempo até chegar à televisão, onde se tornou conhecida do grande público ao encarnar a Solineuza, em "A Diarista", por três anos e meio. Depois, deu vida à sensual Norminha, de "Caminho das Índias", exibida em 2009, e se distanciou um pouco dos tipos cômicos em "Ti-Ti-Ti", de 2010, e "Fina Estampa", de 2011. "As pessoas lembram de mim pelo meu trabalho e isso me lisonjeia. Eu me dou muito para o público através dos personagens", ressalta.

Em muitos momentos de "Salve Jorge", Lucimar assume o perfil de heroína da trama. Principalmente, quando precisa defender a filha, Morena, a protagonista de Nanda Costa. Essa função da personagem já estava prevista?
Foi o que eu vi nos workshops. O que eu vi nas oficinas de preparação para a novela eram depoimentos dessas mães. As mães não calam nunca. Se não fossem elas, não tinha mundo. As mães é que fazem a ponte entre o possível e o impossível. Não as conheci só nos workshops; conheço essas mães antes disso, eu lido com elas.

Como assim?
Eu faço parte de uma organização não-governamental, uma ONG chamada Movimento Humanos Direitos (MHUD), onde a gente ajuda pessoas que não têm voz, que precisam de espaço para expor seus problemas. Nós ajudamos e tentamos proteger vários ameaçados de morte. São pessoas que não calam, mas que não têm um advogado, não têm um esquema de subsistência...

E conhecer essas pessoas ajudou você a buscar elementos para a composição da personagem?
É. Eu gosto muito dessa humanização dos personagens porque considero que mulher moderna é aquela capaz de sobreviver com o mínimo. Com o salário mínimo, com o mínimo de proteção, com o mínimo de segurança, com o mínimo de condições, de educação. Essa mulher que consegue sobreviver com o mínimo, para mim, é a grande heroína contemporânea. Acho que a Lucimar traduz um pouco isso.

Depois da Norminha, em "Caminho das Índias", você emendou personagens mais densas em novelas. Como a Marta de "Ti-Ti-Ti", a Celeste de "Fina Estampa" e, agora, a Lucimar. Foi uma escolha sua se afastar um pouco da comédia?
Não, foi natural. Depois da Norminha, que era uma personagem cômica, tragicômica, eu só fui convidada para papéis mais densos na televisão. Eu, geralmente, escolho meus trabalhos não só pelo personagem. Escolho pelas pessoas envolvidas, se eu quero estar junto delas, se quero conhecê-las. Então, as minhas escolhas não são só a partir dos personagens. Mas acho que, provavelmente agora, vou respirar e avaliar melhor. Porque eu estou sentindo vontade de navegar em outros mares.

Está com vontade de voltar a fazer humor na tevê?
Foram três anos e meio de "A Diarista", eu fiz bastante. Na verdade, eu não crio essa expectativa. A minha sensibilidade também tem de estar de acordo com o que o personagem pede. Eu acho a Lucimar engraçada às vezes. Porque ela tem um jeito de falar que é diferente, tem gestos. Agora, um papel escrachado que nem a Solineuza – ela era "clownesca", era uma personagem circense – é um grau de humor que é rasgado. Esse humor rasgado eu quero que volte, sim. O público adora, eu adoro.

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