Longe daqui, aqui mesmo
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 30 de julho de 2009
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
É fiel ao original ? Esta questão anda tirando o sono daqueles leitores mais apaixonados por ''Budapeste'', terceiro romance da bem sucedida carreira literária de Chico Buarque. A resposta a esta angústia está a partir de hoje disponível no circuito local (veja a programação de cinema na página 2), e pode não agradar a muitos. Mas é filme que não se descarta, pelo contrário. No habitual confronto entre letras e imagens, o resultado na tela não decepciona, ainda que a poética do autor, aqui, não encontre perfeita ressonância na adaptação.
Cinema e Literatura volta e meia se põem à caça de personagens que buscam seus semelhantes. Aquela história do duplo, uma velha lenda germânica - o ''doppellganger'' - sobre a existência de um outro alguém igual a nós, um sósia. No cinema, o tema já alimentou o horror, mas fica mais fascinante quando percorre os caminhos existenciais. Como nesta trama imaginada por Chico.
O protagonista, Costa (Leonardo Medeiros - o cinema brasileiro não vive apenas de Lázaro Ramos, Selton Mello e Wagner Moura), se divide em dois. Vive entre o Rio de Janeiro e Budapeste. Em cada cidade leva uma vida, vive um amor e é perseguido por seus fantasmas e suas neuroses. Ele é escritor anônimo, cria romances para outro assinar. Outro, o duplo. Ele escreve bem, seus textos fazem sucesso, mas a fama quem leva é o outro, o duplo. Costa vive uma vida sem poesia, premido pela tensão da rotina.
Quando volta de Istambul onde participou de um congresso de ghost writer, sua especialidade, fica retido em Budapeste por um problema com seu vôo. A parada forçada se transforma em prazer à medida que descobre uma cidade amarelo-dourada, e não cinza como imaginava. Caminhando pelas ruas e ouvindo o idioma, se apaixona por Budapeste, tão bela quanto fria - a fotografia de Lula Carvalho é um deslumbramento.
Surge a dualidade através da vivência do personagem entre sonho e realidade. Na Hungria ele passa a ser Kósta. Conhece a professora Kriska (a bela e doce húngara Gabriella Hámori), com quem tem um romance. Mas no Brasil, no Rio ensolarado e multicor para onde ele volta, estão sua mulher Wanda (Giovana Antonelli) e o filho pequeno. Ela se apaixona por outro, ninguém menos do que o homem que é best-seller graças ao livro escrito pelo próprio marido.
Agora desnorteado, Costa volta à Hungria atrás da aura fantástica idealizada em torno de Budapeste e da língua - ''a única que o diabo respeita''. Ele está preso a seus demônios e à paranóia, mas curiosamente esta condição adversa o está conduzindo ao encontro do escritor que ele traz dentro de si. A metalinguagem, uma preocupação na narrativa de Chico, está de fato melhor resolvida no romance, enquanto que na transposição a roteirista e produtora Rita Buzzar (''Olga'') e diretor estreante Walter Carvalho encontraram maiores dificuldades para encaminhar a questão - dita por Costa, a frase ''Kriska mal sabe que vive o livro enquanto ele é escrito'' não é uma solução exemplar. Ainda que conviva com a surpresa da quebra da ficção, deixando claro que o filme é um work in progress.
Permanece para o espectador a idéia de que Costa é uma espécie de emblema nesta busca da identidade, do complemento, do duplo. Alguns atravessem oceanos para descobrir a sua metade. Outros acabam descobrindo que ela está e sempre esteve ao nosso lado, e dentro de nós por extensão.


