Longe da frivolidade
Em cartaz na cidade, 'A Vida de Diane' é filme sobre a desintegração familiar, a ruptura de laços, a solidão e a morte de um mundo
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 04 de julho de 2019
Em cartaz na cidade, 'A Vida de Diane' é filme sobre a desintegração familiar, a ruptura de laços, a solidão e a morte de um mundo
Carlos Eduardo Lourenço Jorge 

Passando os olhos pela programação das três dezenas de salas do complexo exibidor de Londrina, as coisas não são lá muito animadoras. O que perpassa é, no máximo, um aceno de boa vontade e simpatia diante de alguns poucos títulos. E comiseração para outros. Férias é espaço amplo para produções comezinhas, ou faladas em português ou faladas em português, isto é, a história do brinquedo de um lado, a turma da Monica de outro.
Não há muito pra onde se garantir. Ou há, se a garantia que se busca olha o mundo com outros olhos, menos condescendentes, mais perquiridores, menos distração, mais investigação. Que pode e deve ser, preferencialmente, um filme que vá fundo na existência humana, com todas as implicações que este mergulho venha a significar. Como por exemplo “A Vida de Diane”, escrito e dirigido pelo estadunidense Kent Jones, que habita as salas escuras do mundo carregando a gravidade de um drama de humanidade a toda prova.
E que drama é esse, da mulher que dá título ao filme? Quem é esta Diane que, à altura dos 70, preenche seus dias como uma espécie de cuidadora, servindo a quem precisa enquanto tenta se aproximar do filho drogadito?
Ela passa suas noites dando uma força num restaurante popular. Porque ainda dispõe de tempo, de energia e de vontade de ajudar o próximo. Entre uma bandeja e outra, ela observa um dos homens que acaba de servir. O tipo está só, terrivelmente só. Antes de atacar com educação o prato fumegante que tem à sua frente, ele junta as mãos e fecha os olhos com força, franzindo o cenho. A expressão inicial de agradecimento degenera, pouco a pouco, em puro desespero. A transformação leva apenas uns poucos segundos, mas na mente de Diane (e na nossa), o tempo se dilatou bastante.
Este é um dos pontos de inflexão da notável estreia de Kent Jones no território da ficção – era o que faltava no exemplar currículo deste crítico, programador e documentarista. No drama ele nos transmite as angústias de uma pessoa no limite de suas energias, uma mulher, Diane (Mary Kay Place), que deixou de viver faz um bom tempo, muito ocupada em satisfazer seus seres queridos.
A prima, o filho, a melhor amiga , a tia. Por males diversos, cada um deles demanda todo o carinho e atenções possíveis. E isto Diane proporciona de sobra. Mas falta algo nesta equação. O sentimento altruísta que nos dão conta os atos dela não se transforma em estado de animo totalmente revelador. E aqui voltamos ao homem solitário que vai se alimentar. E o porque a câmera para ele e não para ela. Aqui é tão importante saber onde se olhar como de onde parte o olhar. Dirigir-se a quem está ao redor para não ter que afrontar o exercício mais difícil: afrontar os próprios fantasmas.
“A Vida de Diane” é filme sobre a desintegração familiar, a ruptura de laços, o envelhecimento, a solidão e a morte de um mundo (sem a certeza que será substituído por outro) . Mas também é trabalho preciso que envolve beleza, estética e os poderosos temas do amor, luta, vida e morte. É filme para qualquer pessoa, mas definitivamente não para todos.


