E se ‘‘Eu, Tu, Eles’’ estivesse em competição oficial, em vez de ‘‘Estorvo’’? A questão é acadêmica e vai ficar obviamente sem resposta. Mas com certeza a recepção seria diferente. Para melhor, claro. Prêmios já seria uma outra história. O segundo longa-metragem do carioca ‘‘Andrucha Waddington (‘‘Gêmeas’’), selecionado na sempre badalada seção paralela ‘‘Un Certain Regard’’, foi exibido ontem na Salle Bazin, a mesma que na véspera tinha abrigado a constrangedora estréia do filme de Ruy Guerra. Embora não lotada, desta vez a reação após a sessão exclusiva para a imprensa foi generosa, com generosos aplausos ao final. De certa maneira, ‘‘Eu, Tu, Eles’’ lava a alma tupiniquim depois do fiasco do último sábado.
O responsável por esta volta por cima do cinema brasileiro no 53º Festival de Cannes é um filme de bom, ótimo tamanho produzido pela Conspiração Filmes, uma sociedade de produtores e diretores de cinema, TV e publicidade com um histórico de 9 anos e muitos trabalhos realizados, entre eles três longas - ‘‘Traições’’ é o terceiro. ‘‘Eu, Tu, Eles’’ é a história de uma mulher peculiar, seus três homens e seus vários filhos, nos confins do sertão brasileiro. Regina Casé é Darlene de Lima Linhares, espécie de Dona Flor desglamourizada e feminista a seu modo, a parte principal de um inusitado quarteto amoroso que se completa com Ozias (Lima Duarte), Zezinho (Stênio Garcia) e Ciro (Luiz Carlos Vasconcellos). Rude e delicado a um só tempo, o filme é saborosamente bem contado. Dores e alegrias permeiam o estranho pacto conjugal. O arranjo doméstico é feito sem maiores hesitações para que as partes envolvidas sobrevivam afetivamente. E psicologicamente, seja lá o que isto possa significar para quatro seres que se completam para sobreviver num circulo de paixões e posse mútua.
Com um elenco afiado e alto nível de produção, ‘‘Eu, Tu, Eles’’ tem tudo para acontecer comercialmente. O lançamento no Brasil está previsto para 4 de agosto, e o filme pode abrir ‘‘hors-concours’’ o 28º Festival de Gramado. Em Cannes para a premiSre mundial, o diretor Andrucha Waddington falou com exclusividade à Folha logo após a exibição, durante coquetel na cobertura do Hotel Noga Hilton. Acompanhe os principais trechos da entrevista.
Como surgiu a idéia para ‘‘Eu, Tu, Eles’’?
Andrucha Waddington - Vendo o ‘‘Fantástico’’, há uns cinco anos. Lá pelas tantas apareceu a reportagem desta mulher, o nome é Marlene, vivendo no sertão do Ceará com três maridos. O que chamou a atenção foi que era o oposto do tradicional, isto é, é mais fácil encontrar um homem, algum ‘‘coronel’’ com várias mulheres do que o contrário. O fascinante era saber como, num país machista, ela conseguiu administrar a situação. Falei com a Elena (Elena Soarez, roteirista do filme) e começamos uma pesquisa que durou uns quatro anos. É claro que partimos de um fato real, mas criamos evidentemente elementos dramáticos de ficção.
Como foi a escolha de Regina Casé para o papel de Darlene?
Na verdade o personagem foi escrito para ela. Em nenhum momento se pensou em outra atriz. Um dia, quando conversávamos sobre o elenco num táxi, até o motorista virou e disse: ‘‘Mas essa mulher só pode ser a Regina Casé!’’ O Lima e o Stênio vieram depois, mas vendo o filme hoje não dá pra imaginar ninguém que fizesse melhor os respectivos papéis.
O que representa ‘‘Eu, Tu, Eles’’ diante de ‘‘Gêmeas’’, seu longa de estréia?
‘‘Gêmeas’’ foi a escola. Aprendi muito fazendo o filme. Do ponto de vista da dramaturgia, sem dúvida foi um grande crescimento. Do universo urbano ao drama sertanejo: é isso que fascina no cinema - mudar de registro, transitar de uma gênero a outro, sem estar me repetindo.
E a parceria com a Columbia?
O filme custou R$ 3,7 milhões, dinheiro captado através da Lei do Audiovisual. A Columbia entrou com R$ 929 mil para as 120 cópias do lançamento, publicidade e divulgação, e vai distribuir o filme no Brasil - no resto do mundo fechamos acordo com a Sony Classics.

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