Juazeiro do Norte, CE, 31 (AE) - Fé. É a palavra em torno da qual tudo se move na terra do padre Cícero Romão Batista. Em especial durante a maior das romarias, a de Finados, que traz para Juazeiro do Norte, no Vale do Cariri, centenas de milhares de pessoas, vindas de todas as partes do Nordeste. Neste ano, as atrações, além das tradicionais visitas à estátua, ao memorial e ao túmulo do padim Ciço, foram o seminário Fé na Cultura - Simpósio sobre a Mulher, Milagre, Memória e Religiosidade Popular, e a projeção, em praça pública, do longa-metragem Milagre em Juazeiro, de Wolney Oliveira, prevista para hoje à noite.
O evento deste ano se concentra mais uma vez na adoração do padre Cícero, o mais popular ícone religioso nordestino. Mas abre também espaço para uma figura relativamente esquecida, a da beata Maria de Araújo, afinal protagonista do milagre que deu início a esse fenômeno de devoção popular. Tudo começou numa manhã de sexta-feira, em 1889. Um jovem sacerdote, miúdo, de olhos azuis, vindo do Crato, oficiava a missa. Quando Cícero distribuiu a comunhão, uma das beatas soltou um grito e caiu. Em sua boca a hóstia sangrara. Ou pelo menos, foi o que seu supôs e acabou se tornando verdade na mitologia religiosa do Nordeste brasileiro. Logo, a fama de Cícero e da beata correram estrada e Juazeiro tornou-se centro de peregrinação dos desvalidos desta vida, que não eram poucos então, como não são agora. Juazeiro cresceu, tornou-se uma cidade importante, Cícero brigou com a Igreja e virou um dos homens mais poderosos da região. Tornou-se História. Mas a beata foi relativamente esquecida.
"O seminário e o filme foram feitos pensando em resgatar a imagem de Maria de Araújo", diz o diretor Wolney Oliveira. "Há
inclusive, a história de um busto da beata, que existia na praça e desapareceu." Assim, o milagre é tido como exclusividade do padre Cícero, como se o corpo de uma mulher pobre não tivesse sido o seu palco de realização.
A polêmica vai além do campo religioso, como lembra a professora da PUC de São Paulo, Maria do Carmo Pagan Forti, expositora do simpósio e autora do livro Maria do Juazeiro, a Beata do Milagre. "A repercussão do que eclesiásticas consideraram Maria uma embusteira, enquanto o padre Cícero teve suspensa suas ordens sacerdotais por não concordar com esta conclusão", diz. Segundo a pesquisadora, a Igreja oficial, no fim do século passado, vivia uma fase de "romanização", procurando reduzir a especificidade da igreja luso-brasileira e aproximá-la das normas do Concílio de Trento. Para tanto, procurava combater, sem trégua, manifestações de penitentes, romarias, boates de milagres, que pululavam pelo sertão com a pobreza e o desespero. "Além disso, pesava contra Maria de Araújo o fato de ser mulher, negra e analfabeta; como o sangue de Cristo poderia se materializar numa criatura destas? Perguntava-se a Igreja Oficial", diz a estudiosa.
Fervor - Para Wolney, é importante promover essa troca de idéias entre a comunidade acadêmica. E era preciso que isso acontecesse durante a romaria, quando o ar está impregnado de religiosidade e fervor. Afinal, padre Cícero e a beata Maria de Araújo são casos exemplares de uma religião popular, não de todo sancionada pela Igreja, mas de comunicação direta com o povo. Basta ver como chegam os devotos a Juazeiro, a grande maioria sobre caminhões pau-de-arara. Acampam nos ranchos, põem na cabeça o tradicional chapéu de palha dos romeiros e iniciam a peregrinação pelos lugares sagrados: a matriz de Nossa Senhora das Dores, a Igreja do Socorro, onde está o túmulo de Cícero, o Memorial, a Casa dos Milagres, a casa onde morava o padre, na Rua São José, e o horto, onde, além da estátua de 17 metros do sacerdote, há o local conhecido como Santo Sepulcro, onde ele ia meditar, e o Museu Vivo, com estátuas representando cenas cotidianas de sua vida.
Como novidade, este ano os romeiros vão encontrar, lado a lado, em tamanho natural, as estátuas de padre Cícero e da beata Maria de Araújo. Sinal dos tempos. A nova ordem feminista finalmente chegou a Juazeiro do Norte.

mockup