Longa-metragem - Meira, cinema, violência e uma razão para viver
Paulo Polzonoff Jr.
Não adianta. Eles tentam, tentam, mas não conseguem assimilar a cultura européia que, em última análise, é o cerne de toda a cultura ocidental. É possível perceber nas entrelinhas do roteiro de O Clube da Luta (Fight Club, 1999), escrito por Jim Uhls, baseado no romance de Chuck Palahniuck e dirigido por David Fincher, referências a Freud, Kafka, Byron, Shakespeare e até Nietszche. Tudo, porém, misturado numa névoa de superficialidade que inexoravelmente descamba para a brutalidade -ao que parece o único modo americano de pensar.
O Clube da Luta seria um filme a mais com muito ketchup e estampidos, não fosse Mateus da Costa Meira e sua submetralhadora num shopping paulista. Os xiitas já aguçaram os ouvidos e bradaram palavras de ordem contra o cinema. Por outro lado, Hollywood se defendeu com o argumento no mínimo questionável de que nem todos que viram o filme saíram por aí atirando. Entre extremos, ninguém questionou o real motivo de o cinema ter-se resumido a socos, pontapés, sangue, tiros e efeitos especiais.
Cinema é catarse. A sala escura tem o poder de transportar o espectador para o turbulento mundo além-tela. Vários filmes já tocaram no assunto, como o magistral A Rosa Púrpura do Cairo, de Woody Allen, e os menos expressivos A Vida em Preto-e-Branco e Truman Show. Que a sétima arte tenha um forte poder de fomentação ideológica também parece inquestionável. Estão aí Eisenstein e Riefenstahl e mais uma centena de teses acadêmicas para provar.
O filme estrelado por Brad Pitt e Edward Norton é somente entretenimento. E deve ser tratado como tal. Elevá-lo ao status de cinema discursivo é um injustiça. Há, sim, um forte conteúdo ideológico, mas nada que fuja do lugar-comum do o-mundo-é-uma-droga-então-que-se-explodaomundo. O que salta aos olhos é a capacidade do espectador adulto em assimilar o carpe diem rasteiro de O Clube da Luta.
O Clube da Luta conta a história de Jack, um funcionário de uma companhia de seguros que frequenta grupos de auto-ajuda como terapia contra sua insônia. A partir daí, Jack faz um discurso sobre a descartabilidade da vida, dos produtos de hotel até os amigos. Um destes amigos descartáveis é Tyler, mal interpretado por Brad Pitt. Jack e Tyler tornam-se amigos duráveis, com problemas similares e acabam por descobrir na violência entre amigos a cura para seus males existenciais. O clube vira uma espécie de maçonaria que evolui para uma organização terrorista que visa livrar a terra do mal das operadoras de cartão de crédito. Nada mais condizente com a paranóia americana, pois.
Evoca nossos instintos recônditos, O Clube da Luta? Faz-nos questionar a respeito da validade da vida? Procura alternativas para nosso espantoso tédio? Pretende-se a uma releitura do mote romântico do carpe diem, o mal do século, representado pelo culto à morte e ao sofrimento nas obras de Lord Byron e Goethe? Nada disso. O Clube da Luta é pancadaria pura. Entre socos e muito sangue vertido não cabe a reflexão. Cabe, sim, tensão, nojo e algumas risadas. Nada que se leve para casa, porém.
Mateus Meira, cinema, violência e uma razão para viver: nem Freud, Shakespeare e Niezsche juntos conseguiriam compreender este caleidoscópio pós-moderno. Mas quem?





