Alguma coisa acontece no coração do paulistano quando cruza a Ipiranga e a Avenida São João. Tão forte é esse sentimento que se poderia esperar que ‘‘Sampa’’, de Caetano Veloso, sobre a esquina famosa, fosse a música preferida dos habitantes de São Paulo. Não é. Quando a TV Globo fez o seu concurso para escolher a música com a cara de São Paulo, a vencedora foi ‘‘Trem das Onze’’, de Adoniran Barbosa. Grande Adoniran. Anos antes, ele já vencera o concurso de músicas de carnaval do 4º Centenário do Rio de Janeiro justamente com ‘‘Trem das Onze’’. ‘‘Não posso ficar/nem mais um minuto com você...’’ O trem de Adoniran vai partir de novo. O maior sambista, o cronista musical de São Paulo vai chegar ao cinema num projeto de Walter Caira.
Mais que uma biografia musical, ‘‘Trem das Onze’’, o longa, pretende ser uma homenagem a Adoniran. Lima Duarte será o intérprete do papel, informa o diretor. E, claro, sendo um filme sobre Adoniran, terá a participação dos Demônios da Garoa. A produção está orçada em R$ 2 milhões e a produtora-executiva Silvana Bezerra diz que a vontade é começar logo a rodar. Mas a captação está difícil. Todo mundo se interessa em ligar o nome a um projeto sobre uma figura tão carismática da vida paulistana, mas as empresas pedem paciência a Silvana e Caira. Querem esperar a definição do imposto a pagar, no fim do ano, para só então deduzir aquilo que poderá ser aplicado no cinema, por meio da Lei do Audiovisual. A dupla, porém, tem urgência. E não será de duvidar se iniciarem logo a rodagem, com a verba de apenas uma das cotas de patrocínio, assegurada pelo portal Yahoo.
Caira explica o porquê do entusiasmo de Lima Duarte pelo projeto: ‘‘Ele conheceu o Adoniran, chegaram a trabalhar juntos.’’ Duarte é ator de poucos papéis no cinema. O importante é que são fortes, em filmes como ‘‘Sargento Getúlio’’, de Hermano Penna, e ‘‘Eu Tu Eles’’, de Andrucha Waddington. Outros papéis poderão ser interpretados por Toni Ramos e Alexandre Borges. Caira é publicitário em Campinas. Ficou obcecado quando viu, no ano passado, um espetáculo de Clóvis Torres sobre o compositor. Rapidamente, escreveu o roteiro, colocou o projeto nas leis de incentivo e agora capta, febrilmente, os recursos para colocar Adoniran na tela.
Para colocar como personagem, bem entendido, pois Adoniran, além de compositor, foi também ator no rádio, no cinema e na televisão. Foi jagunço em ‘‘O Cangaceiro’’, o cult de Lima Barreto na empresa Vera Cruz, pescador em ‘‘Mulheres de Areia’’, na extinta Tupi. Caira explica que não tem a pretensão de contar a vida de Adoniran. ‘‘Quero contar fatos curiosos e engraçados’’, diz. Para isto, a narrativa situa-se principalmente nos anos 50, quando o antigo pintor de paredes, encanador e garçom (na casa do político e historiador Pandiá Calógeras, em Jundiaí) trilhava a bem-sucedida carreira de humorista radiofônico.
O programa ‘‘Saudosa Maloca’’ ficou no ar durante dez anos na Rádio Record de São Paulo. Nele, Adoniran inventou personagens como Zé ‘Cunversa’, o crioulo da Barra Funda que namorava as domésticas da rua com os ternos que tomava emprestados do patrão, e o célebre Charutinho, profissão: desocupado.
No fim da vida, o próprio Adoniran se definiu como ‘‘um palhaço triste’’. São tantas as histórias em torno dele – muitas estimuladas pelo próprio artista – que é difícil separar a realidade do mito. Daí a proposta de Caira: ‘‘Quero homenagear Adoniran, o homem, o boêmio e o artista, e por meio dele quero homenagear São Paulo.’’ Caira reconhece que Adoniran era um sambista peculiar. ‘‘Em primeiro lugar, por ser paulista; depois, pelo linguajar italiano de seus sambas e, finalmente, pela poética ligada à questão urbana da cidade em transformação.’’
Na obra de Adoniran, São Paulo ainda não é a metrópole de hoje, mas a cidade que se destrói para construir. ‘‘Saudosa Maloca’’ é um clássico. ‘‘Aqui onde agora está/ Esse edifício alto/ Era uma casa velha/ Um palacete assobradado...’’
Até para ser fiel à São Paulo dos imigrantes, que amava, Adoniran inventou uma fala, um artefato estético arbitrário forjado na soma dos dialetos multinacionais daquela cidade perpetuamente em obras. E pensar que Vinícius de Morais, em 1955, escandalizado com os erros de português do ‘Samba do Arnesto’’, escreveu que São Paulo era o túmulo do samba. A frase pode ter muito de verdade, mas Adoniran é a brilhante exceção ao epitáfio traçado por Vinícius. Boêmio convicto, o compositor morava no subúrbio de Cidade Ademar, mas gostava de passar a maior parte do tempo no centro da cidade, onde era figura lendária, cercado de homens e mulheres simples do povo e vagabundos da noite, sempre identificável pelo chapéu e pela gravata borboleta. ‘‘Quando escurece, eu começo a viver’’, costumava poetar Adoniran. ‘‘Trem das Onze’’ quer trazer para a tela esse Adoniran da noite.

mockup