Planejar datas, reservar dinheiro e, em alguns casos, fazer as malas. Para uma parcela do público londrinense, ir a shows em 2025 exigiu organização e escolhas que vão além da simples compra do ingresso. O que antes poderia ser um programa pontual passou a ocupar espaço fixo na agenda – e no orçamento – de quem faz da música ao vivo um hábito.

Embora Londrina tenha recebido um número expressivo de apresentações ao longo do ano, nem todos os artistas e estilos desejados passaram pela cidade. Por isso, muitos fãs precisaram cruzar quilômetros para acompanhar seus shows preferidos, especialmente em capitais como Curitiba e São Paulo.

Entre apresentações locais e viagens, os gastos se acumulam e variam conforme a frequência e o destino, mas revelam um traço em comum: para esses consumidores, a música ao vivo não é supérflua. Ela ocupa um lugar central na vida cultural, emocional e até financeira de quem escolhe estar na plateia.

A seguir, três londrinenses contam quanto investiram em shows em 2025, como organizaram esse consumo cultural e o que ainda falta para que a cidade atenda melhor quem vive a música para além dos fones de ouvido.

SHOWS COMO PARTE DA VIDA

Para o nutricionista José Guilherme Alves, 24, ir a shows está longe de ser apenas lazer. Morador de Londrina, ele começou a frequentar apresentações ainda criança, acompanhado pela família, mas foi na adolescência, por volta dos 16 anos, que a música ao vivo tomou um espaço especial na rotina.

Segundo ele, a experiência foi decisiva inclusive para o desenvolvimento pessoal. “Foi importante até para eu me sentir menos tímido, porque você encontra e conhece outras pessoas que estão ali pela mesma vontade. Então é algo essencial na minha vida. Hoje, eu não me vejo sem estar em um show de artistas que eu gosto muito e que admiro bastante. É o meu entretenimento favorito, não abro mão”, diz.

José Guilherme Alves foi a nove shows em 2025, só um deles em Londrina
José Guilherme Alves foi a nove shows em 2025, só um deles em Londrina | Foto: Divulgação

Em 2025, Alves foi a nove shows, sendo apenas um deles em Londrina. Os demais aconteceram em Curitiba e São Paulo, o que elevou os gastos para além do valor dos ingressos. “Só de ingresso foram em média R$ 970, mas somando tudo, com logística, alimentação, hospedagem, deu em torno de R$ 3 mil”, conta. Mesmo assim, ele afirma que o custo não pesa no orçamento, principalmente por planejamento e escolhas estratégicas.

VALOR EMOCIONAL

Em meio a tantos shows, sempre há aquele que permanece na memória. Para Alves, esse momento veio em setembro, com a Turnê das Esquinas, da dupla Anavitória. Fã das cantoras desde o início da carreira, ele descreve a apresentação como uma realização pessoal, principalmente pelo contato mais próximo que teve.

O momento ganhou ainda mais peso por ter acontecido em um ano difícil. No início de 2025, Alves perdeu a mãe, e a viagem para o show acabou funcionando como um respiro emocional em meio ao luto. “Veio como um presente para mim”, afirma.

Leia mais:

Para ele, a música teve papel fundamental nesse processo. “Todo show a que vou é um investimento pro meu bem-estar, pra minha saúde mental e física. Você sai do show com uma sensação de alegria tão grande que parece que tudo que estava machucado por dentro acaba se curando”, descreve.

PRIORIZAR, ECONOMIZAR E ESCOLHER

Se, para Alves, o planejamento é o que permite manter o hábito de ir a shows sem comprometer o orçamento, para a psicóloga Brenda Lucia Queiroz, 30, a lógica é semelhante, mas envolve renúncias mais evidentes. A londrinense também frequenta shows desde a adolescência e afirma que, sempre que surge a oportunidade de ver um artista que admira, faz ajustes financeiros para garantir a experiência.

Em 2025, ela decidiu priorizar um único grande show internacional: o retorno do Linkin Park ao Brasil. A ocasião marcou não apenas pela relação afetiva com a banda, mas também pela experiência inédita de ir sem companhia.

“Fui sozinha a Curitiba para assistir à minha banda preferida desde a adolescência, e foi uma experiência incrível. Nada estragou esse momento”, relata.

Ao todo, ela estima ter gasto cerca de R$ 1.500 com ingresso, transporte e alimentação – valor reduzido por ter conseguido economizar na hospedagem.

Brenda Lucia Queiroz no show do Linkin Park em 2025: “Fui sozinha a Curitiba para assistir à minha banda preferida"
Brenda Lucia Queiroz no show do Linkin Park em 2025: “Fui sozinha a Curitiba para assistir à minha banda preferida" | Foto: Divulgação

Ainda assim, o investimento exigiu abrir mão de outros gastos. “Com certeza deixo de gastar com outras coisas. Se eu precisar me sacrificar para ir a shows, me sacrifico, porque sei que vale a pena”, diz. Para ela, o retorno é imediato e emocional: “As energias se recarregam depois de ir. Uma parte sua se sente completa.”

DIVERSIDADE É IMPORTANTE

A relação com a música ao vivo também passa pela diversidade de estilos, como mostra a experiência de Renato Junior Rodrigues Dias, 29. Filho de uma família ligada ao rodeio, ele cresceu em meio a eventos culturais ligados à música sertaneja e caipira, mas ampliou o repertório ao longo dos anos.

Em 2025, Dias esteve em oito shows autorais, sendo três deles em Londrina e os demais em cidades do Paraná e do interior de São Paulo. Ele estima ter investido cerca de R$ 3 mil ao longo do ano, geralmente dividindo despesas com amigos.

Também apaixonado por viver a experiência completa, dois shows se destacaram: do ex-Titãs Nando Reis, durante o Londrina Rock Festival, e da dupla Zezé Di Camargo & Luciano, em Barretos (SP), que teve um peso afetivo especial. “Eu passei toda minha infância ouvindo as músicas deles e a atmosfera do show foi incrível pra mim”, resume.

Apesar da frequência, ele afirma que nem sempre o preço compensa. Em 2025, deixou de ir a um show do Capital Inicial por considerar o preço elevado, na faixa dos R$ 200 no setor pista simples. “Achei um pouco irreal”, diz. Para ele, um show só “vale o investimento” quando diferentes fatores se alinham, como “a voz do artista, a presença de palco, o ambiente e a organização do evento”.

E o calendário dele já aponta os seus próximos compromissos: Alexandre Pires, em março, e Roupa Nova, em maio – ambos em Londrina.

Renato Junior Rodrigues Dias esteve em oito shows no ano passado e estima ter gastado R$ 3 mil
Renato Junior Rodrigues Dias esteve em oito shows no ano passado e estima ter gastado R$ 3 mil | Foto: Divulgação

'Londrina tem muito sertanejo e pouco espaço para o rock'

Apesar de trajetórias e estilos diferentes, os três entrevistados compartilham a percepção de que Londrina ainda não atende plenamente quem consome música ao vivo com frequência. Para Brenda Lucia Queiroz, embora haja avanços recentes, especialmente com festivais nacionais, a experiência nem sempre é completa. “Em relação às estruturas ou a um lugar que atenda o público de forma confortável, acabam falhando”, avalia.

Renato Junior Rodrigues Dias aponta a falta de diversidade como o principal entrave. Segundo ele, a predominância de um único gênero limita a programação cultural da cidade. “Talvez por sermos uma região onde o agronegócio é muito forte, percebo que a música sertaneja dominou de uma forma quase ditatorial, não tendo mais espaço para o rock ou sequer para o pop”, afirma.

Já José Guilherme Alves compartilha da mesma visão e acrescenta que o problema não é a ausência de público, mas de investimento e variedade. Para ele, Londrina tem potencial para receber mais gêneros e formatos de eventos. “Tem público pra vários estilos aqui. O que falta é versatilidade e interesse em investir na cultura como um todo”, diz.

mockup