Londrinenses em vôos distantes
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sábado, 21 de junho de 2008
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
A vocação teatral londrinense é uma cidade visível de qualquer parte do mundo, através do Festival Internacional de Londrina (Filo). Na edição comemorativa de 40 anos, o evento recebe diretores e atores formados nos palcos locais - como andorinhas que cortaram o céu acima dos telhados conhecidos, eles contam as razões para querer voar mais longe. ''É porque todos os lugares têm os seus limites. Você quer sempre mais e o que deseja pode não estar aqui, como na Bélgica, onde estou, nem no Rio de Janeiro ou em São Paulo'', afirma o bailarino Alysson Pedrão, assistente de direção do espetáculo ''Além Mar'', da companhia de teatro belga Noisette, uma das atrações do 40º do Festival Internacional de Londrina.
O grupo reúne londrinenses que, como Alysson e outros artistas, que começaram a carreira em Londrina, optaram por ficar raízes em palcos longe da cidade, acreditando no crescimento e reconhecimento profissional.
O diretor Paulo de Moraes, as atrizes Patrícia Selonk e Simone Mazzer, do Armazém Companhia de Teatro, que estão radicados no Rio de Janeiro, o ator Adriano Garib, que também adotou a capital carioca, o dramaturgo Mário Bortolotto, do Cemitério de Automóveis, que agora faz parte da cena paulistana, o ator Rogério Ferraz, que trocou o Sul pelo Nordeste ao integrar o grupo Teatro Clowns de Shakespeare, de Natal (RN), Gessica Arjona, Maria Fernanda Coelho e Lili Almeida, que com Alysson, formam a companhia belga Noisette, acreditaram nessa viagem em direção. Alguns não descartam a possibilidade de carimbar o bilhete de volta.
Com apenas três anos de criação, o Noisette já conseguiu algum reconhecimento, o que abriu as portas para que organizações, como a Kopespel e a Federacion Latinoamericana e o Teatro Rataplan, produzissem o espetáculo apresentado no Filo. ''Eu fui para trabalhar com dança. Depois disso, as coisas começaram a acontecer naturamente. Às vezes, por uns cinco minutos a gente diz: 'Hoje, é um dia que eu poderia voltar para o Brasil, mas tem muita coisa esperando por nós na Bélgica''', acredita Alysson, que começou a carreira de bailarino na Companhia Ballet de Londrina.
Conversar com o bailarino e a atriz Gessica Arjona é andar com eles pelas ruas da Antuérpia, uma cidade cosmopolita em que, dizem, trafegam mais de 150 idiomas. ''Viver fora do país tem dois lados. Sempre a língua e a cultura são fatores que limitam, mas conseguimos romper essa barreira e entrar no circuito teatral da Antuérpia. Nos tornamos uma família. Estamos o tempo todo juntos. A nossa força está justamente nessa união'', destaca Gessica.
A atriz completa que a incursão pelo novo faz uma grande diferença, observada até pelo convite para participar da edição comemorativa do festival.
''Se estivéssemos em Londrina, fazendo o mesmo trabalho será que teríamos a mesma receptividade? Ao nos apresentarmos aqui, como uma companhia de fora, as pessoas prestaram mais atenção no que estamos fazendo'', comenta Gessica.
Paulo de Moraes e Mário Bortolotto optaram pelo eixo Rio/São Paulo e alcançaram destaque na nova dramaturgia brasileira. O ator Adriano Garib também conseguiu projeção na capital carioca no teatro e algumas participações em novelas.
O ator Rogério Ferraz pegou outro caminho. Há cinco anos, ele mora em Natal. Formado pela Escola Municipal de Teatro, o londrinense ganhou o prêmio Coca-Cola, o Oscar do teatro infantil, como Melhor Ator, e também da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) pela atuação em ''Fábulas'', peça apresentada no Filo 2008.
Ferraz chegou ao Nordeste a convite do diretor João Marcelino, que dirigiu o ator na montagem londrinense ''Amores Suburbanos''. Naquela região, o ator diz que encontrou o que sempre procurou no circuito teatral londrinense. Somente em 2007, o grupo do qual faz parte, realizou 170 apresentações. Temporada em que a companhia não contou com patrocínio. A moeda era o próprio espetáculo.
''A dificuldade para se fazer teatro é igual em qualquer lugar. Esse número grande de apresentações comprova que é possível viver da arte teatral. Para isso, além dos espetáculos, realizamos oficinas e workshops'', aponta o londrinense. Ele afirma que há espaço para quem trabalha com teatro fora do eixo Rio/São Paulo.
''É possível fazer teatro na sua cidade. Acabei me casando com o grupo de Natal e uma das integrantes. Tinha um desejo de arriscar e conseguir algo que não podia aqui. Ninguém é culpado disso. É uma questão de identificação. Apesar disso, para Londrina, quem é de fora é mais importante. Então vá lá e troca experiência com outras pessoas. Voltando com um grupo de outra região do país, estou conseguindo dialogar com todos. Tenho Londrina comigo dialogando com essas pessoas, tanto com as que encontrei no Nordeste, como as que deixei aqui'', destaca Ferraz.


