Londrinense faz teatro no Equador
Da Redação
Uma viagem aos confins da existência, às vezes cruel, outras patética. Uma oferenda ao povo latino-americano, onde a arte reverencia a garra, o instinto e o orgulho de fazer parte de um povo oprimido e subjugado que se levanta, buscando nas suas raízes uma existência digna e cheia de magia e mistérios. A história do homem latino na luta pela sobrevivência é o espetáculo que o ator londrinense André Luiz Lima estréia hoje, no Equador, durante o Festival de Manta/Portoviejo.
Como Morria e Ressuscitava Lázaro, o Lazarillo, uma adaptação do clássico espanhol Lazarillo de Tormes, é uma co-produção entre Brasil e Equador. Dirigida e adaptada pelo argentino Aristides Vargas Sosa, a montagem representa uma oportunidade de intercâmbio entre artistas latino-americanos. Nesta versão, Lazarillo é um latino, contemporâneo, que nasceu em Matamandingas, um dos afluentes do Rio Amazonas (no original, o personagem é de Tormes, uma cidade na Catalunha).
Lazarillo conta sua própria história, interpretando também outros cinco personagens. Abandonado pela mãe, é entregue a um tio cego, do qual torna-se guia. Com ele, aprende a mendigar e a ver a vida com os olhos do cego, que está sempre lutando em busca de comida. Depois, Lazarillo conhece um padre, com o qual consegue comida após cada extrema-unção, e o italiano que vive de aparências, mas na verdade é também um mendigo. Por fim, Lazarillo serve ao velho político que não deu certo por ser honesto. Em troca de comida, conta histórias para ele dormir.
André Lima passou quatro meses em Quito para montar o espetáculo, um projeto antigo do ator. Tudo começou quando o londrinense foi convidado a representar o Brasil na primeira turma da Escola Internacional de Teatro Della Radici, na Suíça, onde conheceu outros atores latino-americanos. Desde então, fez vários contatos e esteve prestes a montar Lazarillo de Tormes no Rio de Janeiro. O projeto foi adiado, mas a idéia permanecia na cabeça do ator.
Em 1998, durante o Festival Internacional de Londrina, André Lima conheceu Aristides Sosa e foi para o Equador desenvolver o projeto, que no início deste ano ganhou o apoio da Rede de Produtores Culturais Independentes da América Latina e do Caribe.
Em Quito, André Lima teve que se adaptar ao idioma e, antes de começar a estudar o texto, passou por um rigoroso trabalho físico. A partir daí, o diretor trabalhou a dramaturgia, buscando recriar a mecânica da fome nos gestos e figuras que povoam a vida do Lazarillo. A intenção da dupla era chegar a um produto final marcado principalmente pelo portunhol, a língua falada por Lazarillo. Não pela gozação com o brasileiro que acha que fala espanhol e na verdade não fala nada, mas no sentido de misturar as duas línguas para ilustrar esse intercâmbio entre o Brasil e o resto da América Latina, explica André Lima.
Em outubro, o espetáculo será apresentado no espetáculo no Festival Internacional de San Juan de Pasto, na Colômbia, e em duas cidades do Equador: Quito e Guayaquil. No Brasil, estão previstas apresentações no Rio de Janeiro e no Memorial da América Latina, em São Paulo ainda sem data definida.





