Há oito anos, assistindo a um filme que desconhecia, um jovem londrinense teve uma experiência que mudaria sua vida. Leandro Vilar, com apenas 16 anos, travava um primeiro contato com ‘‘Não Amarás’’, um dos grandes filmes do cineasta Krzysztof Kieslowski. Vilar já era artista plástico e conhecia muito o cinema brasileiro, mas ainda não tinha idéia da poesia expressa na filmografia de um polonês que mudou o cinema dos anos 90.
Após alguns meses, ele foi convidado por uma amiga a conferir no Cine-Teatro Ouro Verde o ‘‘melhor filme da vida dela’’, o princípio da trilogia que tornou Kieslowski amado em todo o mundo: ‘‘A Liberdade É Azul’’. Leandro ficou ‘‘passado’’: ‘‘Ele (Kieslowski) era muito inteligente. Nunca tinha visto um filme tão bonito, sensível, realista e ao mesmo tempo poético. Na verdade era mais que um filme’’. Depois vieram ‘‘A Igualdade É Branca’’ e ‘‘A Fraternidade é Vermelha’’, e Leandro ainda pôde descobrir filmes anteriores do cineasta que estavam disponíveis em vídeo, como ‘‘A Dupla Vida de Véronique’’, ‘‘Não Matarás’’ e ‘‘A Cicatriz’’.
Insatisfeito com a restrita produção cultural de Londrina, Leandro se mudou para São Paulo pretendendo prosseguir nas artes plásticas e ingressar no mercado cinematográfico. Começou como estagiário de produção de arte nos porgramas do Telecurso 2000. Conheceu Ugo Giorgetti em uma exibição de ‘‘Sábado’’, na Cinemateca Brasileira, e logo foi mostrar ao cineasta um roteiro original. Após seis meses estava trabalhando na equipe de direção de arte de ‘‘Boleiros’’, o antepenúltimo trabalho do cineasta paulista.
Logo as portas começaram a se abrir: Leandro produziu algumas vinhetas para a MTV brasileira, realizou exposições com suas obras e dirigiu seu primeiro curta em 16 mm, o episódio ‘‘Leonora’’, uma das quatro histórias do curta ‘‘O Filme da Família’’, produzido em 1999.
Antes desse aprendizado técnico, Leandro morou por sete meses em Londres, entre 1998 e 1999: ‘‘Estava insastifeito com o modo de se produzir cinema no Brasil. Pensei - se na Europa existiu um Kieslowski, eles devem fazer cinema do jeito que eu quero. Mas aí percebi que os problemas são os mesmos’’. Vilar se refere aos velhos paradoxos da sétima arte que invariavelmente tende a atribuir mais importância às questões financeiras e técnicas em detrimento da discussão estética.
Apesar de não ter conseguido concretizar nenhuma experiência em cinema na Europa, sua breve viagem foi proveitosa. Ele ainda guardava em sua mente todo aquele universo de sentimentos produzido por Kieslowski e resolveu procurar algumas pessoas que pudessem lhe dar mais detalhes sobre o cineasta. Procurou Emma Thompson, Peter Greenaway e outros grandes nomes; mas ninguém retornou seus e-mails. Eis então que conhece Danusia Stok, a autora de ‘‘Kieslowski on Kieslowski’’, o primeiro grande registro sobre o diretor polonês. Leandro, munido de uma mini DV, gravou meia hora de conversa com Danusa, e cerca de uma hora com o fotógrafo Witold Stok, marido da escritora. Ao retornar para o Brasil, teve a sorte de presenciar a primeira visita do ator predileto de Kielowski, Jerzy Stuhr, ao País. O diretor então gravou duas horas de entrevista com o intérprete, que vinha a São Paulo a convite da Mostra Internacional de Cinema.
Agora ele espera terminar seu documentário com os entrevistados restantes. Para finalizar o projeto ‘‘Krzysztof Kieslowski: O Cineasta que Não Falava Polonês’’, pretende visitar ainda este ano a Polônia, a França e a Inglaterra. ‘‘Quero saber tudo sobre Kieslowski - como ele era, do que gostava, o que pensava. Não quero fazer uma análise sobre a obra. Quero apenas descobrir o homem’’. Irá atingir essas respostas por meio de conversas com as atrizes Iréne Jacob, Juliete Binoche, Grazyna Szapolowska; com o músico Zbigniew Preisner (que Leandro conheceu em Londres), com o roteirista Krzysztof Piesiewicz e com a família: a viúva Marysa, a filha Martha, e uma irmã do cineasta ainda não localizada. Já tem total apoio do Consulado Polonês no Brasil, além da garantia da Mais Filmes, que pretende distribuir o documentário.
Leandro inscreveu seu projeto na Lei Rouanet e na Lei Mendonça (a lei de incentivo à cultura do estado de São Paulo). O valor do projeto totaliza exatos R$ 333.613,00. Parte já foi captada, mas a produtora executiva do projeto, Maria Wilma Rispoli Marigo, avisa que há muito ainda a ser arrecadado. Uma boa chance para os incentivadores paranaenses, já que o projeto proporciona visibilidade nacional, e com muita segurança, internacional, devido ao renome de Kieslowski em todo o mundo.
Fã de Ingmar Bergman (‘‘fiquei passado com Morangos Silvestres’’), Leandro explica que não segue todos os gostos de seu mestre polonês: ‘‘Eu, por exemplo, detesto Federico Fellini. Kieslowski amava’’. Outra predileção de Vilar remete a dois filmes de Hector Babenco, ‘‘Pixote - A Lei do Mais Fraco’’ e ‘‘O Beijo da Mulher Aranha’’. Hoje o jovem diretor passa boa parte do seu dia trabalhando na equipe de direção de arte do novo projeto do cineasta argentino: ‘‘Carandiru’’, que começou a ser rodado semana passada. Tem outras idéias em mente, como o roteiro ‘‘Os Ignoranti’’ e um documentário sobre o escritor norte-americano Edgar Allan Poe (‘‘Já sei até onde filmar nos EUA’’).
Leandro ainda não viu totalmente a série de filmes que compõem ‘‘Décalogo’’, a famosa série que Kieslowski produziu nos anos 80 enfatizando os dez mandamentos do ideário cristão. Tem cinco livros do cineasta em casa, e prossegue com o sonho em mente - poder descobrir quem era esse homem dotado de inteligência e sensibilidade tão raras. Os interessados em apoiar o projeto de Leandro Vilar podem contactá-lo pelo e-mail [email protected] ou pelo telefone (11) 3167-3012.

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