Nasci em Londrina, em 1951. E a angústia que me causavam a cor do barro, as ruas descarnadas, a violência e a precariedade escondidas pelo glamour do design inglês, aprendi a transformar em admiração. E a interpretei como melancolia nostálgica quando compus a valsa que tem o nome da cidade. Já no final dos anos 50 e durante os anos 60, a cidade transformou-se no sonho de todo adolescente. A Higienópolis com seus paralelepípedos, generosamente arborizada, ainda estritamente residencial, o caminho para o Colégio Marista, passando pelo Colégio Filadélfia (onde havia o ‘‘meu’’ conservatório) com seu aspecto ligeiramente rural. As ruas perpendiculares à Higienópolis: a Pará, a Piauí, a Pio XII, a Tupi, a Espírito Santo e a Alagoas (na minha ordem de predileção), e a Sergipe, que era uma rua de ‘‘trabalho’’. Para não falar da Belo Horizonte, a minha preferida na época. Para que a nova geração compreenda, era como se estivéssemos vivendo em um jardim. Em tudo havia cuidado e proporção. Nunca ficávamos angustiados pelo espaço urbano, sempre gentil, e a mais humilde casinha de madeira era um presente para os olhos, tinha suas peculiaridades, o seu jardim, ou quintal, suas árvores, suas cores. Nesse ambiente cresci, tendo estudado piano e teoria com a Dona Eudora, excelente professora, pertencente à Igreja Batista, aquela situada no começo da Av. Paraná, que a exemplo da antiga catedral – cujo menor elogio seria o de ser um edifício ‘‘adequado’’ –, foi também destruída nesse furor ‘‘modernizador’’ – onde o moderno parece ser a ausência da beleza ou do talento, ou da visão das pessoas que fizeram tal empreendimento – para dar lugar a estranhos edifícios que tentam substituir o espaço espiritual por uma idéia equivocada do ‘‘moderno’’ como ‘‘avanço tecnológico’’. Dona Eudora recomendou que assistisse a ‘‘Freud Além d’Alma’’, de John Houston, quando eu tinha uns 15 anos. Era evidentemente uma pessoa lúcida, de idéias, e sou muito grato a ela por ter orientado minha formação musical com carinho e competência. Também pertenci à ‘‘gloriosa’’ fanfarra do Colégio Marista de Londrina, heptacampeã paranaense, tendo iniciado meu contato com os instrumentos de percussão no ano de 1963, inicialmente na caixa de guerra, passando depois pelo repique e surdo médio. Existem tantas histórias que eu poderia contar sobre a fanfarra, mas vou apenas citar que nos apresentamos no estádio do Maracanã em 1963, antes da final do campeonato mundial com Santos x Milan. Só isso já mereceria um filme. No final dos anos 60 (1967/1968), como reflexo dos festivais de música popular da Record, a música passou a ser o centro de nossas discussões. Começávamos a formar uma turma. Eu e o Mário Lúcio Cortes, mais ligados na música clássica, e meu irmão Paulo Barnabé, Robinson Borba, A.C. Tonelli , L.C. Douglas Ortensi e outros, mais ligados à música popular. Eu e Mário tínhamos contato com as irmãs Furtado (Margarida e Marta), excelentes pianistas (sendo que Margarida poderia ter desenvolvido uma carreira semelhante a de Marco Antonio de Almeida), e a primeira vez que ouvimos Bártok foi na casa delas, com Marta executando o Allegro Barbaro, o que nos causou uma impressão irreversível, e detecto aí o meu surgimento como compositor. O Mário, super-talentoso, transitava muito bem por todas as áreas musicais, sendo admirado por todos da turma. Nesse período tínhamos contato também com o Conservatório do Colégio Mãe de Deus, que sempre trazia professores dos grandes centros para palestras e cursos, e começava a se afirmar como um centro de excelência musical na cidade. Mais tarde tive contato também com o grande pianista londrinense Marco Antonio de Almeida, tendo com ele aulas por dois meses. Acho que isso dá uma idéia da minha relação com Londrina até 1971. Quando passei a ter uma projeção nacional, a partir de 1979, tendo inclusive, em 1981, a valsa Londrina premiada no Festival da Globo (chamava-se MPB Shell), fui convidado algumas vezes a me apresentar em Londrina. Acho que até hoje foram umas oito ou dez apresentações. Para o Festival, aconteceram três convites. Primeiro, fui convidado para fazer um workshop, no ano de 1988, depois, um show no ano de 1992 (por obra exclusiva do Domingos Pelegrini, então Secretário da Cultura). Em 1996 fui convidado pela Americans Composer’s Orchestra para participar do evento Sonido de las Américas: Brasil, em Nova York, juntamente com outros compositores brasileiros (Marlos Nobre, Edino Krieger, Tim Rescala, Egberto Gismonti, entre outros). Estava previsto que eu daria uma master-class em Princeton, participaria de debates com compositores americanos e apresentaria no Carnegie Hall duas peças para dois pianos e percussão. A apresentação das peças não pôde ocorrer, devido ao trágico falecimento da filha de Paulo Braga, em um acidente de trânsito, aqui no Brasil, na véspera do concerto. Paulo, que tocava um dos pianos, voltou imediatamente ao Brasil. Então, em junho, o Norton (Morozowicz, diretor do Festival de Música de Londrina) fez um convite para que fizéssemos essa apresentação aí em Londrina, no festival. Como o Paulo não pudesse ainda voltar a tocar, declinei da possibilidade de realizá-lo com outro pianista, em solidariedade. Depois disso não tive mais nenhum convite para o Festival. E essa é minha história com o Festival de Londrina. Em 20 anos de existência, recebi três convites para participar dele. Evidentemente, na opinião dos organizadores do festival, não tive merecimento para mais convites. Acho isso discutível, mas é apenas a minha opinião.

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