Londrina tem projeto para superdotados
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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2006
Liliana Onozato<br> Reportagem Local 
Os primeiros passos de Isabelle foram dados aos sete meses. Aos dois anos e meio, com vocabulário relativamente extenso para sua idade, a pequena questionava seu avô companheiro na contação de histórias o porquê da Chapéuzinho Vermelho não ter utilizado o celular para pedir ajuda quando se deparou com o Lobo Mau. Aos quatro anos, ao invés de desenhar casinhas e brincar com bonecas, ela se divertia com desenhos de gráficos, já que frequentemente acompanhava suas irmãs em palestras do curso de Economia na Universidade Estadual de Londrina (UEL). Hoje, com dez anos de idade, Isabelle integra o rol de alunos considerados portadores de altas habilidades ou, como é popularmente conhecido, superdotação.
O Censo Escolar de 2004 apontou apenas 2.006 alunos superdotados nas escolas públicas e particulares do Brasil, o que não equivale a 0,005% dos 43 milhões de alunos da educação básica regular (da 1 série do ensino fundamental ao 3º ano do ensino médio). A conclusão que se chega é o despreparo dos professores na identificação desse aluno em sala de aula, já que são as escolas que respondem ao questionário.
Indo na contramão do que vinha sendo feito até o momento, não apenas os ''alunos-problema'' terão atenção especial. O Ministério da Educação liberou esse ano um valor aproximado a R$ 2 milhões para que cada Estado crie um centro de apoio aos alunos com altas habilidades.
Se por um lado o dicionário Aurélio define ''indivíduo dotado de inteligência invulgar'', na outra face, os especialistas traduzem os superdotados como alguém que também requer cuidados especiais no amparo e desenvolvimento de suas potencialidades.
''Luto para que minha filha usufrua do direito à educação especial há quatro anos. O preconceito é enorme, mesmo dentro de escolas e entre os professores que ainda não estão aptos a lidar com esse tipo de aluno'', desabafou Soraia Tineui Candia, mãe de Isabelle.
Em novembro do ano passado, dois profissionais vinculados à Secretaria da Educação de cada Estado foram convidados a participar de um seminário em Brasília para capacitação de professores, como parte integrante do projeto de implantação de Núcleos de Atividades de Altas Habilidades/ Superdotação (Naah/S). ''A cidade de Londrina foi escolhida pelo governador para que sediasse esse núcleo. Vamos atuar em três frentes: atendimento ao professor, atendimento ao aluno e apoio à família'', declarou Fabiane Chueire Cianca, coordenadora da Área de Altas Habilidades/ Superdotação do Núcleo Regional de Educação de Londrina.
Apesar de estar localizado em Londrina, o núcleo, que iníciou suas atividades na última sexta-feira no Colégio Estadual Vicente Rijo, prestará serviços prioritariamente às escolas da rede pública do Paraná. Até o momento, quatro alunos encontram-se em atendimento e outros estão em processo de avaliação. O número máximo de alunos assistidos não deve ultrapassar 60, de acordo com a cota disponibilizada pelo Ministério da Educação. Em Curitiba e Maringá, por exemplo, alunos com essas características já vinham sendo atendidos por meio das salas de recursos e enriquecimento curricular.
Além de serem erroneamente associado a termos pejorativos, os portadores de altas habilidades sofrem com o preconceito e a discriminação em seus grupos de convívio social. ''Há relatos de alunos que não querem integrar o núcleo, ou seja, serem identificados como talentosos, por medo de perderem o círculo de amizades'', acrescentou Fabiane.
''A Isabelle já foi muito censurada por professoras que não aceitavam suas perguntas ou até mesmo correções. Num primeiro momento, até recusaram fazer sua matrícula. Durante um tempo, ser portadora de superdotação era defeito para ela, que não queria ser vista como 'nerd'. Veja como são as coisas, a pessoa tem que se omitir para ser aceita na sociedade'', argumentou a mãe de Isabelle. Por conta própria, a pequena notável decidiu ler o livro ''Tróia'', e atualmente se delicia com as narrativas do clássico ''O Homem da máscara de Ferro'' . ''Alguns colegas copiavam minhas respostas das tarefas; muitos que também já me fizeram perguntas bobas. Não suporto erros de concordância, exemplificou a jovem estudante, que pensa em se especializar futuramente em bioquímica ou física nuclear. ''Tudo que eu quero é que minha filha seja feliz. Não estamos falando de show business, mas apenas de pessoas que têm possibilidades de acrescentar, inclusive ao próprio país'', ponderou Soraia.
Talvez o prefixo ''super'' da palavra superdotado, acabe intimidando professores que temem ser testados em sua competência. Outra visão equivocada é pensar que esse educador deva ser também portador de altas habilidades. De acordo com Rosa Maria Scicchitano, psicopedagoga com mestrado em Educação Especial, o modelo de ensino atual não sabe aproveitar esses talentos como ganho. ''Quantas vezes um aluno levanta a mão para comentar algo a respeito do assunto tratado em sala de aula, e o próprio professor pede para que o aluno espere, alegando que ele está adiantado? Os professores acham que seus conhecimentos estão sendo postos em xeque'', avaliou Rosa Maria.
Afinal, os superdotados são gênios e se destacam em todas as áreas de conhecimento, certo? Errado. Esses alunos não sabem e nem querem saber tudo sobre tudo. Como nem sempre tiram dez em todas as disciplinas, comumente podem passar despercebidos pelos professores, e até mesmo pela família. ''Essa criança pode ser muito inteligente em sala de aula, mas não ser muito bom no futebol, por exemplo. E Isso não deve ser fator isolante do aluno. As escolas devem se preocupar com a socialização, não expor esse aluno a uma situação ridícula e oferecer oportunidades. Nos trabalhos em grupo, todos os alunos têm a oportunidade de se conhecer e quebrarem preconceitos'', atentou a psicopedagoga.


