Há dez anos, era improvável imaginar que Londrina se tornasse um dos pólos efervescentes de blues no Brasil. Atualmente, já é possível afirmar que o gênero se impôs no calendário cultural da cidade estabelecendo uma concorrida agenda de shows e festivais, como pouco se vê nas capitais e em outras regiões do País.
Nesta semana, os aficionados têm hora e lugar para apreciar o ritmo nascido no Delta do Mississipi com a realização da terceira edição do "Festival Blues de Londrina", cuja programação acontece de hoje a sábado no bar Valentino. A exemplo dos dois anos anteriores, os shows começam pontualmente às 21 horas.
Curiosamente, o número de ingressos foi limitado por opção da própria produção. "Decidimos reduzir a quantidade a 230 pessoas para preservar a qualidade do ambiente durante os shows", explica o músico, idealizador e organizador Kiko Jozzolino. "Nas duas outras edições, não pudemos oferecer um atendimento adequado em algumas noites por causa do excesso de gente. Por isso, em respeito aos verdadeiros amantes do blues, preferimos priorizar uma plateia seleta em vez de abarrotar a casa, mesmo porque o blues não é um gênero para multidões."
O festival, segundo ele, formou um público cativo na cidade. "Criamos uma comunidade que aguarda as datas do evento. Basta postar a abertura da venda dos ingressos no Facebook para que eles se esgotem. Além disso, criamos um circuito de empresários patrocinadores que apostam no festival, daí não dependermos de dinheiro público para viabilizá-lo. Nosso festival é um dos poucos que contam apenas com recursos da iniciativa privada", assinala. Outra virtude salientada por ele é o Disk Blues, pelo qual o público compra o ingresso e o recebe em casa.
O cantor e guitarrista norte-americano Kenny Brown é a atração hoje, na noite de abertura, que terá também um show da banda curitibana Milk'n Blues. Brown é de New Orleans, capital do jazz e do blues. Com mais de 30 anos de carreira, toca com frequência no Brasil há pelo menos uma década, desde que veio para cá acompanhando o saxofonista Gary Brown, seu primo e padrinho musical.
Bastante íntimo dos trópicos, passa seis meses no Brasil e seis meses nos Estados Unidos.
Chegou a gravar um CD ao vivo na casa noturna Bourbon Street, em São Paulo. Já tocou com Neville Brothers, Bobby Womack, Marva Write e Ron Wood (Rolling Stones), além de ter participado de jam sessions com Slash (ex-Guns N' Roses) e Stevie Ray Vaughan (1954-1990).
Seu som é descrito como "alegre e dançante, variando do soul ao reggae, do funk ao rock, mas sempre com a pegada forte do blues na guitarra e na inflexão vocal". A outra atração da noite, a banda Milk'n Blues traz para o palco três mulheres e três homens em seu primeiro show em Londrina.
Para amanhã, foram escalados dois músicos de prestígio nacional: o gaitista Sérgio Duarte e o guitarrista Marco Ottaviano, ambos de São Paulo. O primeiro é um dos nomes mais importantes em seu instrumento no País. Gravou dois CDS (o terceiro está em fase de produção) em 18 anos de carreira. Além de liderar a banda Sergio Duarte & Entidade Joe, integra as bandas Sotaque Blues e Nasi e os Irmãos do Blues.
Ottaviano, por sua vez, mantém carreira solo e faz parte da banda Blue Jeans, que já lançou um DVD com participação do legendário mestre do blues Magic Slim. Guitarrista requisitado por artistas dos mais diversos gêneros musicais, já participou de gravações de mais de 20 discos de nomes como Nasi, Mona Gadelha e Ari Borger.
Seu mais recente álbum solo é "Blood, Sweat & Electric – A Collection of Instrumentals", uma coletânea com dez gravações instrumentais realizadas entre 1995 e 2010. Há dois anos, publicou o livro "Guitarra Blues: do Tradicional ao Moderno", desenvolvido em parceria com a revista Guitar Player. O volume é acompanhado de um CD áudio (playbacks) especialmente gravado pelo músico incluindo passagens inspiradas nos grandes mestres – 30 lições transcritas e analisadas por Ottaviano transitando entre o blues de Chicago, boogie, funk blues e blues britânico.
A sexta-feira, terceira noite do festival, traz na abertura o trabalho local do Acústico Blues Trio, comandado por Kiko Jozzolino, guitarrista e organizador do Festival. Em seguida, sobe ao palco o tecladista paulistano Ari Borger acompanhado de seu grupo. Elogiado por revistas estrangeiras especializadas de blues, Ari traz a Londrina o repertório de seu recém-lançado CD "Back to the Blues", o quarto de sua carreira.
Talentoso ao piano e à frente do órgão Hammond, ele traz um currículo invejável no qual destacam-se apresentações ao lado de Johnnie Johnson e Pinetop Perkins, respectivamente pianistas de Chuck Berry e Muddy Waters. No Brasil, fez o show de abertura para B. B. King, além de ter tocado em shows e discos dos principais artistas nacionais de blues como André Christovan, Flávio Guimarães e Nuno Mindelis.
Fechando a programação do festival, o palco no sábado recebe a banda londrinense BulletBlue e o guitarrista gaúcho Solon Fishbone. Os pratas-da-casa têm se destacado em seus dois anos de trajetória ao injetar sangue novo ao empoeirado gênero, especialmente pelo desempenho da vocalista Amanda Midorique, uma das grandes revelações musicais dos últimos anos na cidade.
Na sequência, Fishbone traz a experiência de quase três décadas de percurso executando um repertório mesclado de composições autorais e versões para clássicos. Com um estilo que já foi comparado ao de Stevie Ray Vaughan e Freddie King, ele já gravou cinco álbuns – o último, "Fish Tones", é de 2011. Foi seu terceiro disco, porém, que o consagrou definitivamente. Acolhido com entusiasmo pela crítica, "Blues Galore" foi tratado pela revista Guitar Player como "o novo caminho para o blues nacional, é a principal referência do blues para o cenário nacional".

Confira a programação aqui.

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