Londrina respira ARTE
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terça-feira, 05 de junho de 2007
Francismar Lemes<br>Reportagem Local 
A violência está encerrando a vida numa casa de mortos, com muitos cômodos onde nos escondemos, repetindo que ainda estamos vivos, sem querer ver o que está do lado de fora.
Pontual com essa angústia contemporânea, a companhia colombiana LExplose, com o espetáculo de abertura da 39ªedição do Festival Internacional de Londrina (FILO), La Mirada del Avestruz hoje, às 20h30, no Teatro Ouro Verde, encontrará um público que, durante um dos maiores eventos de teatro da América Latina, não deixará de sentar na poltrona das salas de apresentações, carregando atrás de si o contexto de violência nacional, que ainda não nos deixou perplexos o suficiente.
A dramaturgia de Juliana Reyes é a voz oculta, que tentará fazer o público ter um pouco dessa visão ensurdecedora, com direção e coreografia de Tino Fernández.
Os que conseguiram um lugar no Ouro Verde os ingressos para a montagem estão esgotados assistirão a um espetáculo de dança contemporânea em que os 8 milhões de habitantes de Bogotá e de todo aquele país dilacerado pelo conflito se multiplicarão através dos movimentos, como um exército de combalidos espalhados pela América Latina violenta.
LExplose foi fundada na Colômbia em 1995 e, desde o início, o espanhol Fernández trabalha com atores que dançam, tendo se apresentado na Espanha, Estados Unidos, França, Venezuela, México, Portugal e Itália.
Na quarta vez em que a companhia se apresenta no Brasil, Fernández ressalta a importância de abrir um festival com quase 40 anos de existência. Existem vários festivais que aparecem e desaparecem, principalmente porque há desinteresse dos governos. Participar de um evento como este me enche de orgulho, destaca Fernández.
O diretor não conta uma história em particular de violência, mas universal e dos que estão à mercê do medo. É absolutamente teatral, apesar de ser um espetáculo de dança. Por isso busquei o trabalho de dramaturgia. A mim não interessa contar uma história, mas me comunicar. Não encaixo o meu trabalho num estilo, afirma o diretor.
O que ele quer dizer é que o público sentirá na própria pele, que não poderá permanecer fria e insensível durante o espetáculo, a casca da ferida do cotidiano sendo arrancada com força pelos movimentos dos nove bailarinos. Metaforicamente, o espectador verá que é possível desviar o olhar da avestruz, que procura um buraco para se esconder. A arte se encarrega muito bem disso.
Colocar 2 toneladas de terra no palco do Ouro Verde para a montagem é um desafio para a produção do FILO, mas o elemento é parte da metáfora de LExplose para a razão que, como uma avestruz, esconde a cabeça num buraco, deixando de fora os penachos de uma intelectualidade sem muita serventia.
Esconder-se da realidade não é algo só da Colômbia, mas do Brasil também, que faz parte do ser humano, da vida. No nosso país ainda continua um conflito de três bandos e um quarto bando que aparece com a delinqüência e personagens que estão em conflito e que enfiam a cabeça no buraco para continuar subsistindo, comenta o diretor.
Juliana Reyes acrescenta que para os artistas colombianos, como acontece com qualquer outro, é inevitável não partir da realidade para criar e que, no caso deles, a violência é a matéria-prima mais ao alcance da mão. Apesar disso, as pessoas tentam continuar vivendo, nascendo, morrendo e amando, sem querer ouvir o barulho fora da vida pessoal.
Para Fernández, é como se estivéssemos numa bola de cristal, acreditando que o conflito está longe, apenas na TV e no Iraque - um buraco para enfiarmos a cabeça. A terra espalhada no palco é só mais um elemento para desestabilizar os bailarinos que, em cena, têm domínio de sua impotência. Uma impressão falsa da relidade que só o poder consegue dar.
Algo que parece oposto à capacidade de criar na adversidade em países como a Colômbia e o Brasil, onde a classe artística consegue tirar a cabeça do buraco e furar os olhos da avestruz para poder exergar a verdade e ressuscitar os nossos mortos.


