A 10ª edição do Festival Blues de Londrina traz à cidade dois grandes representantes do gênero no Brasil. A cantora carioca Taryn Szpilman e o guitarrista Nuno Mindelis se apresentam neste sábado (28), na Chácara Graciosa. O evento tem início pontualmente às 21 horas.

Taryn Szpilman é da quinta geração de uma família de músicos, seu tio-avô Wladyslaw Szpilman que teve a vida retratada no filme “O Pianista”
Taryn Szpilman é da quinta geração de uma família de músicos, seu tio-avô Wladyslaw Szpilman que teve a vida retratada no filme “O Pianista” | Foto: Divulgação

Taryn é a quinta geração de uma família de grandes músicos e maestros, como seu tio-avô Wladyslaw Szpilman que teve a vida retratada no filme “O Pianista”, produção dirigida por Roman Polanski e vencedora do Oscar. O avô da cantora Waldemar Szpilman foi parceiro de Heitor Villa Lobos. E seu pai Marcos Szpilman foi maestro fundador da Rio Jazz Orquestra, big band pioneira do jazz no Brasil.

A carioca coleciona elogios da crítica especializada sobres seus shows e discos. Ela foi citada por Roberto Menescal como a cantora de maior emissão vocal do Brasil e por Jô Soares como a melhor intérprete de Billie Holiday. Como dubladora, alcançou a posição de uma das mais importantes vozes da Disney, como protagonista no Brasil da premiada animação musical “Frozen”, na qual fez a voz oficial da rainha Elsa.

“É um momento desafiador para todos nós, mas minha ida a Londrina para participar da 10º edição do Festival Blues de Londrina me enche de alegria. Londrina e seu Festival já são referência no Brasil e eu não queria ficar fora. Vai ser uma emoção e uma satisfação pessoal dividir meu trabalho com todos vocês nessa edição comemorativa”, afirma a cantora que estará acompanhada dos músicos Claudio Infante (bateria e direção musical; João Gaspar Moura (guitarra e banjo) e Samuel Ramos de Souza (contrabaixo e trombone).

Nuno Mindelis é um músico luso brasileiro, nascido em Angola. É considerado um dos mais conceituados guitarristas de blues do mundo. Morando no Brasil há mais de 20 anos, o músico já lançou dez álbuns e, em 1998, foi eleito pela revista americana “Guitar Player” o melhor guitarrista de blues, segundo o concurso mundial de aniversário de 30 anos da publicação.

Em Londrina, o instrumentista se apresentará ao lado de Marcos Klis (guitarra e baixo), Dhiego Andrade (bateria), Henrique Mota (teclados) e Ilker Ezaki (percussão). Trabalhando na divulgação de seu mais recente álbum, intitulado “Angola Blues”, Mindelis concedeu uma entrevista exclusiva à Folha.

Nuno Mindelis: "Nasci em 1957 e no meio dos anos sessenta já começou um boom de blues, justamente na fase em que a gente é mais vulnerável às influências"
Nuno Mindelis: "Nasci em 1957 e no meio dos anos sessenta já começou um boom de blues, justamente na fase em que a gente é mais vulnerável às influências" | Foto: Divulgação

Como e quando você se aproximou da música?

Eu me lembro de ser músico desde que a gente se lembra da gente. Aos seis anos eu tenho lembranças mais claras de ouvir Beatles, pegar a raquete de tênis e ficar fingindo que tocava guitarra, de construir violões com latinhas, de tocar caixinha de bombom, caixinha de charuto. Antes do seis eu me lembro de dos talheres nas refeições serem usados como baquetas, porque, inclusive, essas facas repicam nos pratos exatamente como baquetas. Então, eu estava copiando sons de bateria que eu ouvia nas músicas e me lembro perfeitamente disso.

O blues esteve presente desde o início de sua trajetória?

Pode-se dizer que tá desde o início, sim. Nasci em 1957 e no meio dos anos sessenta já começou um boom de blues, justamente na fase em que a gente é mais vulnerável às influências.

Você nasceu em Angola e morou no Canadá antes de vir para o Brasil. Ter vivenciado culturas tão diferentes influenciou sua música de alguma forma?

Eu passei por muitos outros países por causa da música. Apesar de morar no Brasil, eu passei mais tempo nos Estados Unidos e na Europa porque tinha turnês extensas. Eu acho que essas mudanças de país, claro, têm sempre uma grande influência, nem que seja inconsciente. Mas o fato é o seguinte, quando eu saí de Angola, eu já tocava, eu já tinha toda essa formação básica, esse quartel de informação vai pro resto da vida. A sede da história toda foi em Angola.

Você tem afirmado que seu álbum mais recente, “Angola Blues”, é o seu melhor trabalho. Por que acha isso?

Ele tem um significado muito grande. Os hits de rádio que eu ouvia quando era criança eram esses que estão nesse disco. Do ponto de vista técnico, trabalhei mais como produtor e tive mais tempo também. Refiz guitarras e vocais, que é uma coisa que eu nunca faço e pude chamar complementos, como a galera da percussão, além da cozinha básica: baixo, bateria, guitarra e teclado ao vivo, como se fosse um show. Se não for o melhor, certamente é o mais importante, porque eu também acho que é um que poderá deixar um legado superior e com as participações de Airton Moreira, Flora Purim.

Como você avalia atualmente o blues no panorama musical do Brasil?

Eu acho que o Brasil, do ponto de vista de técnico, deu uma melhorada violentíssima em relação ao tempo que eu, lá nos anos oitenta, fiz o primeiro disco. Eu acho que o blues, atualmente, é nicho, como é o jazz tradicional. Enfim, não é popular. É isso que torna festivais, iniciativas, como essa do festival de Londrina, importantíssimas. E está de parabéns o Kiko por carregar isso com obstinação há pelo menos dez anos. E apesar disso tudo, o que eu acho é que existem tribos e nichos pra todo lado. Então, uma população de oito bilhões de habitantes no planeta, cada um ouve o que gosta e existe público pra tudo.