Agora é praticamente oficial. Londrina pode perder sua mais tradicional sala de projeção de cinema. O Cine-Teatro Ouro Verde deve passar por reformas, no segundo semestre deste ano, nas quais serão realçadas suas características de teatro. Se isto acontecer, deixará de cumprir a função para a qual foi criado: exibir filmes. A decisão final, porém, só deverá sair em maio, quando o diretor da Casa de Cultura da Universidade Estadual de Londrina, Alcides Carvalho terá a confirmação da liberação, ou não, de R$ 1 milhão do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para as reformas.
Segundo Carvalho, a agenda do Ouro Verde para o segundo semestre está em branco justamente por este motivo, já que as reformas deverão começar em agosto. ‘‘Porém, se até maio não tivermos a confirmação da liberação do dinheiro, deveremos passar a agendar atividades’’, diz. Mesmo assim, é praticamente certo que o espaço deverá deixar de exibir filmes. ‘‘Infelizmente, na falta de um Teatro Municipal, o Ouro Verde vem suprindo esta carência. E a agenda lotada de atividades acaba prejudicando a exibição de filmes’’, explica.
A maior preocupação de Carvalho é a descaracterização da função histórica do Ouro Verde, inaugurado no dia 24 de dezembro de 1952 apenas como cinema. ‘‘Historicamente, o Cine Ouro Verde é importante para Londrina. Ele atraiu multidões e os londrinenses passaram bons momentos ali. Apenas no decorrer da história foi transformado também em teatro’’, conta. Segundo o diretor, ele se sente constrangido em tirar a função de cinema do espaço mas ‘‘hoje, pelo fato da cidade não ter um teatro próprio, esta foi a saída encontrada para suprir a demanda’’, afirma.
A falta de público nas sessões de cinema foi um dos motivos que influenciaram a decisão. Segundo ele, é quase um círculo vicioso. ‘‘A falta de público é consequência da impossibilidade de manter uma programação de filmes regular, pelo uso do espaço em outras atividades. O público não cria o hábito. Por sua vez, não compensa manter um cinema de mais de 900 lugares vazio’’, lamenta.
Para o diretor da Divisão de Cinema e Vídeo da Casa de Cultura e responsável pela programação cinematográfica do Ouro Verde, Carlos Eduardo Lourenço Jorge, é justamente a multiplicidade de funções que afasta o público-alvo. ‘‘O Ouro Verde é sala de exibições, sala de teatro, dança, música, festivais, sala de congressos, conferências, formaturas...Isto acaba sendo ingrato para a exibição cinematográfica, cuja programação fica toda entrecortada. Não dá para conquistar público assim’’, justifica.
Segundo Lourenço Jorge, a descontinuidade da programação acaba por inibir o espectador que perde o seu referencial. ‘‘Eu costumo atender dois tipos de telefonemas aqui: o primeiro perguntando quando voltaremos a exibir filmes e o segundo, o mais doloroso, perguntando se ainda exibimos filmes’’, conta. Além disto, segundo ele, as fitas exibidas pelo Ouro Verde destoam daquele espaço físico. ‘‘São filmes de arte, reflexivos, fora do circuito comercial, voltados para um público mais intelectualizado e que devem ser exibidos em salas menores de, no máximo, 200 lugares’’, afirma.
Apesar do anúncio de que o Ouro Verde não mais será cinema, a Casa de Cultura deve manter a programação cinematográfica, só que em novo espaço. ‘‘Nós estamos, já há algum tempo, procurando alternativas e um espaço que possa abrigar um cinema de arte. Porém, até agora, ainda não conseguimos encontrar um local adequado. Os que havíamos pensado anteriormente, como o Cine Com Tour e até o Edifício Autolon, não evoluíram nas negociações’’, explica Alcides Carvalho. O Autolon acabou sendo vendido para uma empresa comercial.
Uma das alternativas estudadas é a construção de uma sala de exibição no campus da UEL. Mas para isto, seriam necessárias verbas que a UEL ainda não tem, segundo Carvalho. ‘‘Mas nós pretendemos que a programação não pare, que a Universidade continue com esta atividade que é fundamental para a formação de seus alunos e uma opção para as pessoas interessadas em filmes de alta qualidade que estão fora do circuito comercial’’, afirma.

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