A cidade de Londrina serviu de estudo de caso para uma pesquisa do Projeto de Investigação Internacional do Observatório de Políticas Culturais de Montevidéu (Uruguai) e Unesco. O estudo aponta Londrina como modelo de política cultural. A psicóloga social Patrícia Monteiro Lacerda, pesquisadora e consultora do Unicef e da Unesco Brasil, fez contatos e visitou Londrina no início de março e posteriormente enviou um amplo relatório detalhando suas impressões sobre a cidade, apontando traços do comportamento sócio-cultural dos londrinenses e os parâmetros que norteiam a filosofia de trabalho da atual administração da Secretaria Municipal de Cultura.
A Folha2 teve acesso ao extenso relatório assinado por Patrícia Lacerda, que mais do que inserir Londrina no contexto de cidade-modelo faz um raio-x daquilo que se pretende de política cultural. O Observatório de Políticas Culturais, à qual Patrícia Monteiro Lacerda integra, procura ao mapear as cidades levar em consideração a riqueza que cada cidade tem de incomparável.
O Observatório de Montevidéu e a Unesco fazem pesquisas políticas culturais. A intenção do Observatório de Políticas Culturais é mapear e divulgar as práticas culturais interessantes e idéias inovadoras. ‘‘Procuramos nessas iniciativas inovadoras o que elas podem servir de inspiração’’, explicou Patrícia Lacerda, em entrevista à Folha2, por telefone. Londrina foi selecionada a participar do Projeto de Investigação Internacional por integrar a Rede das Cidades da Paz, coordenada pela UNESCO, e à Rede Mercocidades.
A entidade internacional envia formulários, faz estudo aprofundado das práticas culturais via internet, por telefone e visita pessoal. Segundo informou Patrícia Monteiro Lacerda, além de Londrina, as cidades de Belém, Caxias do Sul (RS), Belo Horizonte e Curitiba serviram de estudo de caso. Mas o estudo não foi restrito ao Brasil, diversas cidades da Ásia, Europa e América do Norte foram mapeadas.
A Secretaria Municipal de Cultura enviou material referente à Lei Municipal de Incentivo à Cultura e o Relatório da Conferência Municipal de Cultura, que aconteceu em 2001. Em sua visita a Londrina, ‘‘num dia muito proveitoso’’, Patrícia Lacerda conheceu o início do processo e fez inúmeras entrevistas com integrantes da Secretaria de Cultura e membros da comunidade. Dentre os informantes-chaves estavam Cirene Cândido (membro do Conselho de Cultura da Região Sul), Rosalina Batista (diretora fundadora da ONG Mulheres Batalhadoras) e André Luiz Lima (produtor cultural e oficineiro).
De acordo com a pesquisadora, a cultura tem local privilegiado nas administrações públicas em se tratando de cidades turísticas e históricas. Patrícia Lacerda cita Londrina, Belo Horizonte e Porto Alegre como cidades que inserem a cultura num lugar de destaque na administração pública. ‘‘São cidades que conseguem se articular e fazer uma produção cultural interessante’’, avalia. No caso de Londrina, a pesquisadora ressalta que existe uma continuidade com rigor nas atividades culturais que a cidade oferece, apesar de Londrina ser bastante jovem. A continuidade se dá tanto na produção pontual como na formação de quadros e cita como modelos de perenidade (e resistência) os Festivais de Teatro e de Música.
O estudo de caso centrou foco no programa Rede da Cidadania – que estabelece na cidade um circuito cultural integrador – e reconheceu nesse atual estágio a falta de infra-estrutura do programa. ‘‘Enquanto não é ideal a Rede da Cidadania tem estratégia de ocupar espaços na cidade, sem impedir a mobilização das pessoas. Isso é muito interessante porque vai pressionar a demanda por espaços culturais. A Secretaria de Cultura acaba pressionando a si mesma’’, constata.
A pesquisadora da Unesco relatou que os princípios gerais que embasam o lugar da cultura na sociedade, segundo a Comissão Mundial para a Cultura e o Desenvolvimento, estabelece a necessidade de reconhecer a diversidade das manifestações humanas como nossa grande riqueza. ‘‘Uma das características que mais nos impressionou no trabalho que se desenvolve em Londrina é, a organicidade das ações, que exige uma mirada no conjunto das políticas e não na sua fragmentação’’, destaca. Para ela, o estofo conceitual de política cultural é fundamental, pois faz a costura entre pensamento e ação.
Esse mapeamento no qual Londrina foi inserida poderá ser conhecido numa publicação da Unesco e Observatório. Na edição bilingue espanhol e inglês constará estudos de casos de diversas cidades.

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