É como se Londrina tivesse entrado no túnel do tempo. De repente, uma série de shows trouxe de volta aos palcos toda uma safra de cantores e compositores brasileiros banida das paradas e que atingiu o ápice do sucesso entre o final dos anos 70 e começo dos 80.
Só nos últimos três meses vieram à cidade Belchior, Zé Geraldo e Renato Teixeira. Hoje é a vez de Oswaldo Montenegro. Do jeito que a coisa vai, não será improvável se algum produtor bancar a vinda nos próximos meses de Ednardo, Beto Guedes, Amelinha, Lô Borges, Diana Pequeno e outros nomes relegados à margem do mercado desde a explosão do rock nacional há uma década e meia.
Habitando o ostracismo, a maioria desses artistas passou a se apresentar para platéias menores em salas modestas das capitais e cidade do interior. Nem a volta da MPB ao centro das atenções da indústria musical devolveu-lhes o prestígio e as glórias do passado quando apareciam com frequência em programas de tevê, tocavam sem parar nas rádios, vendiam discos aos borbotões e apinhavam teatros.
Londrina entrou nessa rota. ‘‘Muitos desses artistas negociam seus cachês depois da apresentação levando em conta a quantidade de ingressos vendidos. Isso tem facilitado bastante a realização dos shows’’ – explica Paula Carolina de Ávila Ribeiro, que comanda uma agência de comunicação e uma produtora de eventos na cidade.
Sua produtora é a responsável pelos shows de Belchior, Zé Geraldo e Oswaldo Montenegro. A escolha dos nomes partiu, segundo ela, de uma mistura de viabilidade comercial e gosto pessoal. ‘‘São artistas esquecidos, mas que contam com um público adulto fiel que aprecia qualidade acima de tudo’’ – diz. Paula está empolgada com o show de Oswaldo Montenegro.
A princípio, projetou o espetáculo para a casa noturna onde trabalha, mas percebeu que o local seria pequeno para abrigar o público. Acabou transferindo para o Teatro Marista. ‘‘Acho que o show vai ter grande aceitação’’ – acredita ela. Na rádio Universidade FM, boa parte dos pedidos dos ouvintes recai sobre o repertório dessa turma ou de nomes da mesma geração.
É o que diz Jersey Gogel, produtor musical da emissora. O mais surpreendente, segundo ele, é que o grosso das ligações vem da garotada e não de quem acompanhou a trajetória dos artistas. ‘‘O curioso’’ – continua ele – ‘‘é que a molecada nunca pede as músicas novas, mas sempre os antigos sucessos agindo assim como os fãs de Bob Dylan ou dos Stones, que vão aos shows para ouvir os clássicos e não as músicas do último disco’’.
Ele detecta uma atitude parecida com as canções regravadas, que são preteridas em favor das versões originais. Na emissora, diz ele, pedem muito mais a música ‘‘Feira Moderna’’ na gravação de Beto Guedes (dos anos 70) do que na recente releitura feita pelos Paralamas do Sucesso para o álbum ‘‘Acústico’’.
O mesmo se repete com as canções consagradas de Belchior – como ‘‘Apenas um Rapaz Latino-Americano’’, ‘‘Medo de Avião’’ ou ‘‘Tudo Outra Vez’’ – cujas versões originais são mais pedidas do que as revisões com roupagem eletrônica reunidas no CD ‘‘Auto-Retrato’’, lançado há poucos meses. Gogel reforça a idéia de que existe um público ansioso em Londrina para ver ou rever esses artistas:
‘‘Quando soube que o show do Belchior estava marcado para uma quarta-feira e que na mesma noite o Corinthians e o Palmeiras se enfrentariam pela Libertadores da América numa partida de futebol que a imprensa chamou na véspera de ‘o jogo do século’, pensei: não vai dar ninguém nesse show. Mas foram mais de duzentas pessoas. Fiquei surpreso’’.
A loja de discos Jardim Elétrico, por sua vez, não sentiu até agora os efeitos da atual temporada de shows na cidade. Especializada em raridades de MPB e rock, as prateleiras se mantém irredutíveis a títulos de Belchior e companhia. ‘‘É o tipo de disco que vira encalhe. Aqui, pelo menos, ninguém tem procurado discos desse pessoal’’ – informa o proprietário Nilson Fakir.
O público dos shows, entretanto, já pode ficar ligado. Um show do paraibano Zé Ramalho está previsto para a segunda quinzena de novembro.

mockup