LONDRINA EM CLIMA DE PAIXÃO
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 12 de outubro de 2000
Jackeline Seglin De Londrina 
A aglomeração de dezenas de atores, técnicos, diretores, câmeras, cenário, microfones e uma grua transformou um dos pavilhões da Sociedade Rural do Parará, em Londrina, no set de filmagens de Cine Paixão, curta-metragem em 35 milímetros de Sérgio Concílio, Vera Senise e Kátia Garcia, produzido por Caio Cesaro. Para estrelar o filme foi convidada a atriz Ingra Liberato, que atuou nos longas O Cangaceiro e Dois Córregos. Desde quinta-feira ela está na cidade para as filmagens, atuando como protagonista ao lado dos atores Rodrigo Fregnan, de Londrina, e Ricardo Reis, de São Paulo.
Dirigido por Sérgio Concílio e Vera Senise, da produtora paulista Invasores da Tela, Cine Paixão mostra a filmagem de uma cena de um longa-metragem. O curta, de aproximadamente 10 minutos de duração, traz uma única cena de um beijo, repetida várias vezes devido à sequência de erros da equipe. Queremos mostrar essa persistência por parte dos atores, da equipe técnica, em realizar o filme. O telespectador muitas vezes não sabe o que e como as coisas acontecem no set de filmagens, relata o diretor.
A gravação fictícia se passa nos anos 50. Sérgio Concílio conta que o casal se comporta como se tivesse assistido ao filme Ladrão de Casaca, de Alfred Hitchcock. É uma homenagem a ele e ao diretor François Truffaut, que também fez um filme dentro de um filme em A Noite Americana, diz ele.
Cine Paixão tem Marcos Fontana na direção de fotografia, Elza Corsi na direção de produção e Fernando Henares na direção de arte. O figurino, produzido pelos londrinenses Nélio Pinheiro e Karla Matida, foi especialmente confeccionado para Ingra Liberato e adaptado para os demais atores. A inspiração também veio das obras de Hitchcock.
De acordo com os diretores, este filme já foi rodado em Super-8 em 1992, e recebeu prêmio do júri oficial e júri popular no Festival de Cinema de Gramado. Agora, a produção está mais elaborada e, em 35 milímetros, o alcance é muito maior, relata o diretor. Naquela época, o cinema estava em queda, o governo Collor quase acabou com tudo. O filme foi feito mesmo por paixão, como uma resistência ao desmanche do cinema brasileiro, lembra Vera Senise.
Sérgio Concílio, que foi assistente do diretor Carlos Reichenbach no filme Dois Córregos, conta que Ingra Liberato aceitou de imediato seu convite para filmar em Londrina. Topei antes mesmo de ler o texto. Depois vi que me meti numa coisa bacana. E é engraçado porque uma vez já estive neste mesmo lugar, num leilão de Nelore, lembra a atriz.
Para Ingra Liberato, a experiência com atores novos é uma troca. Tenho espírito de aprendiz. Sempre olho para tudo como aprendiz. Me sinto muito estudante. E assim, um ajuda o outro.
O ator Rodrigo Fregnan, 25 anos, foi selecionado para o papel entre 72 candidatos inscritos. Ele disse que fez o teste por acaso. E acabou sendo escolhido para ser o protagonista ao lado de Ingra Liberato. Foi bacana. Vai ser legal expandir horizontes, diz o ator, que faz sua estréia em frente às câmeras. O personagem de Fregnan é um ator de cinema tarimbado, ao contrário da personagem de Ingra Liberato.
Ricardo Reis é de São Paulo e já fez outros trabalhos com a equipe de Sérgio Concílio. Pela primeira vez em Londrina, o ator de 44 anos interpreta um diretor de cinema, pessoa insegura, que tem muitos projetos engavetados e agora está conseguindo lançar seu primeiro filme.
A personagem de Ingra Liberato é uma atriz de teatro famosa, conceituada, e que faz sua estréia no cinema. Ela é muito insegura e, quando contracena, percebe isso. Ela não erra nunca, mas a equipe comete um deslize atrás do outro, analisa.
Além do trio de protagonistas, Cine Paixão tem mais 13 atores figurantes de Londrina e um de Umuarama, além de uma equipe de técnicos de São Paulo, Curitiba e Londrina. No total, 50 pessoas estarão trabalhando juntas até domingo. Escolher atores locais é um dos meios de valorizar o que se tem feito na cidade. O objetivo é começar uma formação de profissionais para o audiovisual em Londrina, já que aqui há duas universidades que formam mão-de-obra para quase todas as áreas do cinema, diz o produtor executivo Caio Cesaro.
Sérgio Concílio afirma que essa é a idéia do projeto de capacitação profissional: trabalhar com pessoas que não têm experiências com cinema. A parceria dos profissionais de São Paulo com Londrina começou há três anos, com a realização de uma oficina de cinema em Super-8. No ano passado, a mesma equipe rodou em Londrina o curta-metragem Saudade, também trabalhando em parceria com uma equipe local.
Cine Paixão promete ser um marco, na opinião de Caio Cesaro, já que há 13 anos não se faz em Londrina uma produção em 35 mm. Esta é mais uma etapa para colocar a cidade em destaque no cenário cinematográfico e incentivar a produção local, analisa.
O projeto está sendo parcialmente viabilizado pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura o orçamento total do filme está calculado entre R$ 80 e 100 mil , e tem apoio do Banestado, Transporte Coletivo Grande Londrina, Francovig, Top Brasil, LPR, Cedro Hotel, Kodak e Panificadora Central.


