Construir narrativas por meio de imagens, principalmente, registros fotográficos, é uma das formas encontradas por pesquisadores e um recurso muito utilizado por instituições na preservação da história e cultura de um povo. Neste processo, inevitavelmente, a tecnologia auxilia na democratização da informação por meio da ampliação do acesso. Não por acaso, museus espalhados pelo mundo possuem grande parte de seu acervo digitalizado (incluindo objetos tridimensionais), de maneira que, mesmo com a perda física ou desintegração do material, a história permaneça “viva”. Infelizmente, grande parte dos patrimônios históricos do Brasil ainda estão distante dessa realidade e, em casos recentes como a tragédia do incêndio do Museu Nacional (RJ), muita coisa se perde. Porém, não faltam tentativas de driblar a falta de investimento.

Nesta perspectiva, há pouco mais de dois anos, a equipe do Museu Histórico de Londrina tem realizado etapas de digitalização de imagens por meio do projeto “Preservação de Coleções Fotográficas como Patrimônio Histórico e Cultural de Londrina”, via Promic (Programa Municipal de Incentivo à Cultura). Desde então, segundo Regina Alegro, coordenadora do projeto, ex-diretora do museu e integrante da ASAM (Associação dos Amigos do Museu), cerca de 20 mil fotos e negativos já foram digitalizados, representando uma fatia de importantes coleções de fotógrafos e imigrantes que retrataram vários momentos do desenvolvimento da cidade, desde a década de 1930. “Ainda há muito material doado a ser digitalizado, mas já demos um primeiro passo importante na manutenção de imagens históricas de Londrina. Lembrando que tudo está disponível ao cidadão por uma ferramenta de pesquisa”, diz.

Mulheres colhendo café, foto de Yutaka Yasunaka: imigrante japonês também foi pioneiro das imagens aéreas
Mulheres colhendo café, foto de Yutaka Yasunaka: imigrante japonês também foi pioneiro das imagens aéreas | Foto: Yutaka Yasunaka/ Acervo Museu Histórico de Londrina

A ferramenta em questão é o site www.memoria.pr.gov.br
permitindo consulta pública na plataforma Pergamum que, além de bibliotecas, passou a integrar a Rede de Informações Museus Paraná. Na lista do Museu Histórico de Londrina, estão acervos de imagens captadas por José Juliani, João Cavalheira e Ney Braga, além das publicações do Jornal Correio do Norte. Alegro, que também é professora do Departamento de História do CCH (Centro de Letras e Ciências Humanas), da UEL (Universidade Estadual de Londrina), diz que outras coleções doadas estão em processo ou na fila para digitalização, como arquivo de fotos do jornal Folha de Londrina, que completou 70 anos em 2018, e Kimiye Tommasino, antropóloga e professora da UEL, que fez várias imagens da cultura indígena kaingang ao longo de sua vida profissional.

A coleção mais nova disponibilizada no sistema ao público é do acervo Foto Estrela, um dos mais importantes estúdios de fotos da região, inaugurado em 1938 pelo imigrante alemão Carlos Stenders e, depois, conduzido pelo imigrante japonês Yutaka Yasunaka até 2008. “Yutaka foi um dos pioneiros em fotos aéreas. É muito interessante ver suas imagens que mostram o desenvolvimento da ocupação urbana em Londrina e era, também, uma forma de viabilizar imagens para cartões-postais, muito comuns naquela época.” O acervo Foto Estrela conta com 166 documentos e 86 objetos tridimensionais, todos relacionados à produção fotográfica e atividade comercial do estúdio, como câmeras fotográficas, tripés e cenários. O fotógrafo também era muito procurado por famílias para registrar a infância dos filhos, para que as fotos pudessem ser enviadas de lembrança aos familiares pelo correio.

Vista da antiga Catedral de Londrina  a partir da praça Willie Davis
Vista da antiga Catedral de Londrina a partir da praça Willie Davis | Foto: Yutaka Yasunaka/ Acervo Museu Histórico de Londrina
Carros de época estacionados no centro de Londrina na fase de ouro da cidade
Carros de época estacionados no centro de Londrina na fase de ouro da cidade | Foto: Yutaka Yasunaka/ Acervo Museu Histórico de Londrina

NOVIDADE

Outra coleção que está a caminho de ser disponibilizada no sistema é de Armínio Kaiser, agrônomo do extinto IBC (Instituto Brasileiro do Café), que registrou vários períodos, com destaque para as décadas de 1940 e 1950, na região norte do Paraná e interior de São Paulo. Sua temática principal foi o forte movimento cafeeiro e, nas imagens, é possível ver registros dos modos de vida da época norteados pela cultura do café. “Kaiser possuía uma “educação fotográfica e artística”, possível de perceber em suas imagens que trazem uma linguagem mais contemporânea”, explica o professor de fotografia Edson Vieira, um dos coordenadores do Câmara Clara Instituto de Memória e Imagem, associação focada na preservação e difusão do patrimônio cultural fotográfico e de memória.

Anteriormente, parte do material de Kaiser e de Yutuka já havia sido objeto de estudo do professor, juntamente com outros pesquisadores. O Instituto Câmara Clara lançou vários livros com imagens históricas de Londrina, dentre eles “É de sonho e de pó (2015)”, com fotografias de Carlos Stenders nas décadas de 1930 e 1940; “Revelações da História: o Acervo do Foto Estrela (2006)”, com fotos de Yutaka Yasunaka das décadas de 1950 a 1970; além de “Ao Sabor do Café (2008)” e “Ao Aroma do Café (2013)”, com imagens de Armínio Kaider da cafeicultura paranaense da década de 1950 e 1957 a 1970, respectivamente. “A motivação para a realização desse material foi apresentar esses dois grandes fotógrafos de Londrina que estavam no ostracismo, escondidos em caixas”, conta ele, que também trabalhou no estúdio Foto Estrela.

Trabalhadores de café de Astorga fotografados por Armínio Kaiser, agrônomo do extinto IBC
Trabalhadores de café de Astorga fotografados por Armínio Kaiser, agrônomo do extinto IBC | Foto: Armínio Kaiser/ Acervo Museu Histórico de Londrina

TRANSFORMAÇÃO

Nas milhares de imagens das coleções, estão registros da construção de importantes espaços e patrimônios da cidade, nos quais a arquitetura modernista surgia em meio às perobas e mata nativa. É o caso da foto da Concha Acústica que, na praça 1º de Maio, desponta com a torre da Igreja Presbiteriana e outras edificações, como o Edifício Julio Fuganti. Há imagens ainda da primeira Catedral de Londrina, colégios tradicionais, ruas centrais com modelos de carro da época e imagens de diversas eventos, principalmente da igreja católica. Nas fotos dos pioneiros que registravam a vida rural, é possível ver os enormes armazéns de café, propriedades, maquinários e colheitas da principal economia da cidade até a década de 1970.

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