LONDRINA, CIDADE DAS ÁGUAS UMA VIAGEM NO TEMPO
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 04 de junho de 2003
Especial para Folha 
O escritor Domingos Pellegrini faz uma viagem imaginária pelas águas de Londrina no ano de 2020. Embarque com ele nesta lenta travessia que começa com a consciência ecológica e termina num cenário de águas límpidas e natureza recuperada
1932 - No Patrimônio Três Bocas, ainda cercado de mata, os peões arrancam tocos na futura Alameda Miguel Blasi. É um trabalho penoso cavar para cortar as raízes das enormes árvores já derrubadas, e o prefeito Willie Davids passa para dar uma olhada no serviço. O capataz aponta uma mina, brotando forte da terra, em frente dali onde será um dia o Restaurante Rodeio: o que fazer com a mina?
Depois do arranquio dos tocos, serão cavadas as primeiras valetas de esgoto, e o prefeito manda canalizar a mina. O capataz pergunta se não será uma pena mandar para o esgoto uma água tão boa.
- Ora - diz o prefeito - Há tantas minas por aí...
1946 - O Patrimônio Três Bocas tornou-se Londrina, a Capital do Café, e, pelas ruas cobertas de novos paralelepípedos, passam táxis e charretes em frenético movimento. A mata já está longe no horizonte, e dos aviões se vê que a clareira da cidade é cercada de muitas outras clareiras com cafezais.
No campo e na cidade, as muitas minas secaram, com o rebaixamento do lençol freático, devido ao ressecamento do solo sem a cobertura úmida da mata. Mas há tantos riachos, a cidade tem água à vontade, para que se preocupar com isso?
2000 - A água torna-se recurso a cada ano mais raro no mundo, mas Londrina agora capta água do Rio Tibagi, que parece inesgotável, e ainda tem no subsolo o Aquífero Guarani, que poderá abastecer a cidade por séculos com água limpa que nem precisa de tratamento.
Mas o Lago Igapó, cartão postal e balneário popular da cidade, está ficando raso de tanto assoreamento, de lama e detritos trazidos pelas enxurradas de novos loteamentos. O lago também sofre com a poluição difusa, a massa de detritos trazida pelos bueiros das ruas: folhas trituradas pelos carros, papéis, embalagens, tocos de cigarros, palitos, toda a coisarada miúda que as pessoas pensam que mal nenhum fará ao ambiente...
A Patrulha das Águas há tempos alerta que é preciso conter a erosão dos loteamentos, a poluição dos lava-rápidos, a imensa poluição miúda, os dejetos industriais e os vazamentos do sistema de esgotos.
2003 - A Prefeitura toca um grande programa de recuperação de toda a Bacia do Cambezinho, que forma o Igapó e, com seus afluentes, recebe as chuvas caídas no sul e oeste da cidade, como a Bacia do Jacutinga recebe as chuvas caídas no norte e no oeste.
O Igapó agora são quatro lagos, dois deles com pistas de caminhadas e equipamentos de lazer e esportes. Mas falta muito, conforme João Batista Souza, o canoeiro que há mais de década percorre o Cambezinho desde a nascente toda semana:
- Ainda falta principalmente consciência do povo, para evitar as pequenas poluições que tanto mal fazem aos riachos e aos lagos. Falta um novo tipo de bueiros, com telas para impedir a entrada desses detritos, e com reservatório para eles, para limpeza periódica. Mas como a prefeitura vai dar conta de tantas tarefas? Só mesmo com os moradores ajudando, cuidando dos bueiros diante de suas casas.
2004 - Cresce o SALVO - Serviço de Voluntários Ambientais a cuidar dos bueiros, riachos e áreas verdes.
A Mata dos Daher, pela qual corre grande parte do Cambezinho antes de formar o Igapó, é declarada Reserva Particular do Patrimônio Ambiental, e por ela começam a passar turmas de caminhantes. A primeira trilha ecológica de Londrina vai da nascente do Cambezinho, no viaduto Londrina-Cambé, até o Parque Arthur Thomas, passando pelas lagoas ao fundo do Parque de Exposições, agora abertas para o povo, e passando também pelos lagos Igapó.
Os caminhantes vão recolhendo lixo do riacho e da mata, ouvindo guias ecológicos e históricos, e refrescam-se nas pequenas cascatas, banham-se numa velha represinha restaurada, ali atrás da Confepar. Os guias mostram como os brejos, que a população tanto devastava, por ver apenas como ''mato'', são essenciais para preservação das bacias, como grandes filtros de águas poluídas, mantenedores de umidade, abrigadores de vida animal.
Outras pequenas represas foram feitas ao longo do riacho, ajudando a reter os sedimentos para dragagem, e oxigenando a água com suas cascatas, de forma a que a água chega limpa aos lagos Igapó, cada um também sedimentando e limpando a água para o seguinte. Assim, o velho Igapó 1 está com água limpa, e o Igapó 2, desassoreado com dragagem, voltou à profundidade de décadas atrás.
2005 - Gente de toda a região vem curtir os lagos de Londrina, inclusive os da Zona Norte, e esse turismo regional traz renda para o comércio, orientado para servir bem e poluir nada.
As prefeituras de Londrina, Assaí e Ibiporã inauguram o Parque do Tibagi, para recreação popular, reatando a antiga estrada Londrina-Assaí e atraindo mais gente de toda a região.
2006 - A legislação ambiental do município já era avançada mas, agora, vigora o novo Código Ambiental de Londrina, com multas pesadas para poluidores, e as águas melhoram mais ainda. Lava-rápidos e indústrias já nada poluem, e a poluição difusa diminui com a conscientização crescente.
Quem joga um papel no chão é repreendido, no ato, por alguém que recolhe o papel e enfia no bolso para levar à próxima lixeira.
O povo frequenta cada vez mais os lagos, mesmo à noite, e com isso também diminui o vandalismo. O reveillon popular nos lagos reúne dezenas de milhares de pessoas que, no dia seguinte, se orgulham de não ter deixado lixo algum.
2020 - O turismo das águas, como é chamado, continua atraindo turistas agora de todo o país. Trilhas ecológicas percorrem todo o município, com cascatas de água filtrada, a lama retirada sendo usada para fazer adubo junto com as folhas e aparas de gramados da cidade.
As minas dos vales foram transformadas em fontes, com água potável para quem quiser beber ou levar para casa. Minas canalizadas foram reabertas e transformadas em fontes no Zerão, no Vale do Rubi, no Vale Verde e outros vales, também na Zona Norte - e mesmo no centro da cidade, como aquela que nascia em frente do Rodeio e, depois de canalizada por vários quarteirões, formava o Córrego do Leme a desaguar no Igapó ali do lado do Iate Clube.
Com fontes e lagos, trilhas ecológicas com cascatas limpas e o Parque do Tibagi, Londrina passa a cumprir a intenção da Companhia de Terras, que colocou a cidade no alto, em divisor de águas que correm para todas as direções.
Uma das minas canalizadas no centro da cidade é reaberta e chamada de Fonte Londrina, simbolizando os novos tempos da cidade que sempre soube renovar sua economia, agora conciliada com o ambiente. Ou, como dizem com alegria e orgulho os londrinenses, A Cidade das Águas.


