Lolita, sempre lolita
O filme mais polêmico dos últimos tempos chega às locadoras de forma bastante discreta. A Lolita de Adrian Lyne é um remake do controvertido clássico dirigido por Stanley Kubrick em 1962 que, por sua vez, bebeu na fonte do escritor russo-americano Vladimir Nabokov, que escreveu o romance nos anos 40, provocando um verdadeiro escândalo. O filme conta a história de um professor quarentão que se apaixona por uma garota de 14 anos. Realizado três décadas depois da primeira versão, Lolita continua incomodando a sociedade puritana por abordar um tema bastante indigesto: a pedofilia.
O estranho é que outro filme recente Happiness (Felicidade), vencedor da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e, que deverá concorrer ao Oscar, também mexe no mesmo vespeiro, não chegou a causar tanta repulsa quanto a obra de Adrian Lyne, que sequer encontrou salas dispostas a exibi-la nos Estados Unidos. Pela primeira vez na história do cinema, uma produção de US$ 58 milhões teve pré-estréias em apenas algumas salas de Los Angeles e Nova York.
Qual das duas Lolitas é melhor? A de Kubrick ou a de Lyne? É difícil dizer por que ambas foram realizadas em épocas diferentes e por diretores que têm perfis totalmente opostos. No entanto, os dois filmes são ótimos. É, com certeza, o melhor trabalho de Adrian Lyne, um cineasta acostumado a fazer pornochiques como Nove e Meia Semanas de Amor e Atração Fatal. Lyne foi mais fiel ao livro de Nabokov que Stanley Kubrick. A Lolita de Adrian Lyne não tem a mesma carga de humor imprimida por Kubrick para dar leveza à história de um homem que sucumbe à perversidade infantil de uma garota.
O ritmo de Lyne é sempre pesado, lento e perturbador. A cena de abertura é fantástica, mostrando Jeremy Irons dirigindo por estrada deserta e coberta de nevoeiro com as mãos sujas de sangue, segurando um grampo de cabelo de Lolita. No fundo, ao som da música de Ennio Morricone, Jeremy Irons cita vários trechos do original de Nabokov. A atriz Dominique Swain faz uma Lolita menos vítima que a Lolita de Sue Lyon, no filme de Kubrick. Adrian Lyne construiu cenas que perturbam até os mais liberais, mas sempre com um extremo bom-gosto. Por mais estranha e desagradável que seja, Lolita é acima de tudo uma bela história de amor.
Quem assistiu à Lolita de Kubrick lamentará, principalmente, a redução do personagem do perverso Clare Quilty, que na primeira versão foi brilhantemente interpretado por Peter Sellers e, na versão atual, é vivido pelo ator Frank Langella, mas com uma participação muito pequena. Lançamento da Playarte. Duração: 138 minutos.DivulgaçãoJeremy Irons, Dominique Swain e Melanie Griffith: os personagens centrais desta refilmagem do romance de Vladimir NabokovCelso Mattos





