Todo homem de meia-idade sonha um dia ser agarrado por uma linda adolescente e arrastado para os delírios dos lençóis com o imaginário invadindo o desejo e o desejo fertilizando o imaginário. A literatura moderna se debruçou sobre essa temática expondo sentimentos que permaneciam ocultos nas sombras da libido.
O romance ''Lolita'', de autoria do escritor russo Vladimir Nabokov (1899 - 1977), é uma marco mundial nesse sentido. Publicado em 1955, quando Nabokov morava nos Estados Unidos, o livro escandalizou os leitores na época. Narrando o intenso envolvimento sexual entre um homem de meia-idade e uma garota de 15 anos de idade, tornou-se uma das obras mais lidas em todo o mundo.
Nabokov ficou com a fama de ''Lolita'' (termo que passou a ser sinônimo de ninfeta ousada e libidinosa), mas não foi o primeiro a escandalizar os leitores trabalhando com tal temática. O pioneiro foi o brasileiro Mário Donato com o romance ''Presença de Anita'', publicado em 1948.
Cinquenta e três anos depois, a história de Mário Donato volta a respirar oxigênio. Transformada em minissérie pelo dramaturgo Manoel Carlos, em exibição pela Globo, a obra acaba de ser reeditada pela Editora Objetiva. É certo que o escândalo provocado pelo livro em 1948 não será o mesmo. Na época, ocorreram duas passeatas de mulheres católicas, nas cidades de São Paulo e Campinas, solicitando a proibição do romance. Bispos chegaram a classificá-lo como livro proibido, de teor erótico e nocivo à moral religiosa.
Em vez de retirar a obra das livrarias, o movimento conseguiu o resultado inverso. Em questão de meses dez edições foram realizadas. Jovens e marmanjos liam ''Presença de Anita'' escondidos pelos cantos, na solidão dos banheiros, saboreando seu conteúdo ''proibido''. Foi lançado nos Estados Unidos no início da década de 50 assim sendo, é provável que Vladimir Nabokov tenha dado uma olhada no romance de Donato antes de escrever ''Lolita''.
Diz a lenda que Mário Donato escreveu ''Presença de Anita'' em apenas duas semanas, fumando quatro maços de cigarros em jornadas diárias de 18 horas de trabalho, ouvindo sempre um mesmo disco de 78 rotações tocando na vitrola. Na verdade, segundo as anotações do autor, o romance foi escrito entre os meses de fevereiro e setembro de 1947.
Autor de quase trinta livros, Mário Donato nasceu em Campinas em 1915. Seu primeiro emprego foi ao lado do pai, um tipógrafo que tinha entre seus clientes pessoas como Monteiro Lobato e Menotti Del Picchia. Formado em contabilidade, trabalhou por algum tempo como contador mas logo passou para a profissão de jornalista. Exerceu a função de diretor artístico da Rádio Nacional e Rádio Excelsior e terminou seus dias como presidente da Companhia Energética de São Paulo (Cesp). Morreu em 1992 de pneumonia recluso em sua casa com quase várias obras inéditas. Era irmão mais velho do também escritor Edmundo Donato, mais conhecido pelo pseudônimo de Marcos Rey.
A minissérie ''Presença de Anita'' produzida pela Globo não segue a história original do romance de Mário Donato. Isso deve ficar claro. O próprio Manoel Carlos faz questão de afirmar, em entrevistas, que a série é uma história criada por ele inspirada nos personagens do romance de Mário. Ou seja, existe semelhanças e diferenças num mesmo grau.
Em ''Presença de Anita'', Mário Donato realiza um romance psicológico temperado com crônicas de costumes e baldes de sexualidade. Em alguns momentos, chega a lembrar o tratamento dado por Nelson Rodrigues às normas morais de caráter social. O livro começa de modo instigante, com um duplo suicídio. Após uma maratona sexual, Anita (uma garota independente de 19 anos) e Eduardo (uma homem de 40 anos, casado, pai de dois filhos) decidem que a melhor solução para o amor que vivem é a morte, o suicídio.
O drama é que, após o pacto de morte, Eduardo sobrevive ao disparo do revólver, Anita não. Então, seu adultério torna-se público, além de ser suspeito pela polícia de ser o responsável pelo tiro que tirou a vida de Anita. Em sua temporada de internamento hospitalar, Eduardo passa refletir sobre os acontecimentos, sobre o poder de sedução de Anita, sobre seu desejo sexual.
Ao mesmo tempo que Mário Donato apresenta as etapas de relacionamento de Anita e Eduardo, discorre sobre o julgamento a que ele é submetido pela justiça, acusado de homicídio. Os grandes aliados de sua defesa é justamente sua esposa e família. Em vez de ser julgado como um canalha, é considerado um herói. Essa inversão de valores é colocada com ironia pelo autor.
Eduardo então, torna-se uma espécie de herói, tanto pelo mundo masculino, por ter conseguido ser amante de uma linda adolescente, quanto pelo mundo feminino, por ter procurado morrer em nome do amor. Apesar de desestruturar a própria família, é reverenciado por amigos e parentes. Apesar de quase morrer e ter provocado a morte de uma jovem, é desejado pelas mulheres.
Esse talvez seja o grande jogo do romance. Assim, é evitável a comparação de ''Anita'' com ''Lolita''. Isso porque os dois romances apresentam a relação de um homem de meia-idade com uma adolescente. Em ambos os casos a mulher, com seu alto grau de beleza e sedução, arrasta o homem para um delírio amoroso e sexual. Dentro desse delírio comandado pelo desejo, ele rompe com os preceitos morais para experimentar a plena união do instinto sexual e das malhas dos sentimento. O jogo entre o poder feminino e o poder masculino é levado às últimas consequências.
Em ''Presença de Anita'', Mário Donato prolonga essa discussão. Isso porque, após a experiência com Anita, o personagem Eduardo é seduzido pela irmã da esposa, uma garota de 18 anos chamada Diana. Assim, uma nova história tem início, como se uma Anita número dois entrasse na jogada, arrastando novamente o protagonista para um atormentado impulso sexual. Essa nova etapa representa praticamente um terço do romance.
A narrativa de ''Presença de Anita'' possui uma certa irregularidade. Nas análises psicológicas é capaz de arrebentar paredes, na realidade palpável é neutro. Não há um posição moral, apenas a apresentação do amor como algo inevitável de alto poder destrutivo. Destrutivo no sentido de desconstrução de normas sociais para a manifestação construtiva do desejo.
Algo como as seguintes palavras do escritor: ''Há qualquer coisa de misterioso para além da carne, irredutível pela carne. Talvez porque só se possui realmente dum ser aquilo de que se conseguiu impregná-lo, e o esforço que se faz para extrair da espessa crosta que é a carne, o mistério do espírito que procuramos, não consegue mais que levar-nos de volta à posse de nós mesmos. Só os amantes sabem que possuir é apenas uma palavra, e nisso consiste o seu desespero.''


qPresença de Anita - De Mário Donato, Editora Objetiva, 303 páginas, R$ 26,90.

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