Luiz Fernando Carvalho é uma voz dissonante dentro da Globo. Experimental e sempre ávido por novidades, é da gaveta do diretor de núcleo que saem os projetos mais ousados da emissora. Famoso por estourar seus orçamentos e evitar modismos, Carvalho segue na contramão.
No momento onde séries de humor escrachado e novelas cada vez mais rápidas estão na ordem do dia, o diretor resgata escritores do quilate de Graciliano Ramos, autor do especial "Alexandre e Outros Heróis" – que volta à grade em formato de série no segundo semestre deste ano –, ou retoma sua parceria com Benedito Ruy Barbosa no remake de "Meu Pedacinho de Chão", próxima trama das seis.
Com previsão de estreia para abril, o folhetim marca a volta do diretor ao universo das telenovelas, 12 anos depois da controversa "Esperança". "Só topei voltar a dirigir novelas por causa do Benedito. Nosso diálogo artístico é forte e o texto dele me inspira. Tentamos fazer uma série e a Globo não topou. Como não é o formato que está em jogo, retomar essa parceira em uma novela é muito bem-vindo", analisa.
Sempre cheio de ideias, a pré-produção da novela coincide também com a idealização de outros projetos para a emissora, como a adaptação do romance "Dois Irmãos" de Milton Hatoum.
No entanto, desde dezembro, Carvalho tenta se manter concentrado apenas na trama. Já com boa parte do texto em mãos, ele trancafiou-se com o elenco principal em seu galpão de ensaios, que fica nos fundos do Projac – Central Globo de Produção, na Zona Oeste do Rio de Janeiro –, para estudar os diálogos e encontrar a unidade artística que julga necessária para a novela.
"O galpão me trouxe um novo processo de trabalho. Virou um celeiro de ideias e descobertas. Me sinto responsável em dar o melhor de mim nessa nova versão. Foi a primeira novela do Benedito na Globo e é um produto especial", conta.
Exibida originalmente em 1971, a novela é centrada em temas recorrentes em outras tramas do autor, como o coronelismo e brigas latifundiárias. E tem como pano de fundo a história de amor entre a humilde professora Juliana e o "playboy" Fernando, papéis de Bruna Linzmeyer e Johnny Massaro. "Por tocar em questões fortes, a novela teve inúmeros problemas com a censura nos anos 1970. Eu e Benedito adoramos falar sobre terra e propriedade. E, além de liberdade, temos um elenco escolhido a dedo", valoriza.
Na produção, Luiz Fernando se empolga ao voltar a trabalhar com nomes conhecidos de projetos passados, como Antonio Fagundes e Osmar Prado. Mas também faz questão de apresentar rostos pouco vistos pelo público de tevê, como Irandhir Santos, Cintia Dicker e Inês Peixoto. "A tevê carece de renovação. Adoro trabalhar com grandes atores, mas mostrar novos talentos é essencial", ressalta o diretor de 53 anos.
Carioca e desde sempre obcecado por artes visuais, Carvalho iniciou sua trajetória nos estúdios aos 14 anos, como estagiário de Cinema. Após sair premiado de vários festivais ao redor do mundo por conta do curta-metragem "A Espera", foi chamado para dirigir novelas na extinta Manchete e, posteriormente, na Globo.
Na emissora, destacou-se pela estética arrojada de seus trabalhos, especialmente em tramas dos anos 1990 como "Renascer" e "O Rei do Gado", ambas assinadas por Benedito Ruy Barbosa. "São duas novelas que me deram muitas alegrias. 'Renascer' foi reprisada há pouco tempo no canal Viva. Como estávamos resolvendo detalhes da próxima novela, cheguei a assistir a alguns capítulos na companhia do Benedito. Fiquei orgulhoso de ver como a trama envelheceu bem", gaba-se.
Nos últimos anos, o diretor tem se dedicado a projetos mais curtos em textos originais, como "Afinal, O Que Querem As Mulheres?" e "Suburbia", além de adaptações de clássicos da literatura para a tevê, como "Os Maias", de Eça de Queirós, e "A Pedra do Reino", de Ariano Suassuna. "Vou guardando todas as ideias que tenho. Uma hora surge a oportunidade de tirar o pó e mostrar ao público", destaca.

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