Locadoras têm clássicos de Stanley Kubrick
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segunda-feira, 17 de maio de 1999
Luiz Zanin Oricchio Agência Estado 
Com a morte de Stanley Kubrick começa automaticamente o trabalho de reavaliação crítica da obra. Autor de filmografia compacta (12 longas-metragens e o inédito Eyes Wide Shut), mas significativa, pode ser revisitado em vídeo, ainda que não de forma completa. Há seis títulos disponíveis no catálogo: Spartacus (1960), Doutor Fantástico (1964), 2001, uma Odisséia no Espaço (1968), Laranja Mecânica (1971), O Iluminado (1980) e Nascido para Matar (1987).
Uma boa amostragem, que inclui: um drama histórico, que Kubrick dirigiu depois do afastamento de Anthony Mann; uma alegoria antibélica, poderosa na época da guerra fria, mas que se mantém intacta até hoje; um épico espacial que é tido como modelo (inatingível) para qualquer tentativa no ramo da ficção científica; uma parábola da violência gratuita que não soaria estranha para nenhum habitante de cidade grande, paulistanos principalmente; um filme de suspense, também tido como paradigma, e outro libelo contra a guerra, desta vez referido à campanha americana no Vietnã.
Assista a qualquer um deles, de preferência a todos. O primeiro detalhe a ser notado é que parecem não ter envelhecido, embora os mais antigos do lote tenham 30 anos ou mais. Essa permanência do tempo parece consequência do perfeccionismo do autor. Kubrick foi um terror dos produtores, porque às vezes gastava uma eternidade para realizar um longa-metragem - 2001 custou nada menos que quatro anos de trabalho. São obras de artesanato, trabalhadas com obstinado rigor. É o que faz a diferença: filme produzido em linha de montagem já nasce velho - ou você conhece coisa mais antiquada que o sucesso de bilheteria da estação anterior?
Essa busca da perfeição técnica rendeu alguns momentos de antologia. Por exemplo, a dança das naves espaciais ao som do Danúbio Azul e os efeitos especiais no fim de 2001. Ou a câmera acompanhando o garotinho e seu velocípede em O Iluminado. São imagens que permanecem na memória, ao contrário do que acontece com a maioria dos filmes contemporâneos, que não deixa traço de passagem pela retina do espectador.
A perfeição formal ajuda, mas não é tudo. Kubrick não seria o que é não fosse o fato de ter colocado essa boa forma a serviço de um conteúdo temático perceptível e importante. Em seus filmes, ele parece tentar entender o funcionamento do homem em contradição consigo mesmo - ou com seus produtos e atitudes.
No caso de Doutor Fantástico e Nascido para Matar, a brutalidade da guerra, esse fato humano aparentemente tão incontornável que fez Klausewitz defini-lo de forma singela como a continuação da política por outros meios. Um libelo contra a guerra pode ser bem-intencionado, mas infantil. Kubrick filma para adultos mentais. Em o Doutor Fantástico debocha da corrida armamentista, insinuando que o desejo de morte está inscrito no coração da caserna. - Mesma denúncia, mas sem o sarcasmo, empresta força a Nascido para Matar, filme que apresenta primeiro o brutal treinamento militar e, depois, a sua, digamos assim, aplicação no campo de batalha.
A violência, desta vez inscrita no seio da sociedade civil, é o tema de Laranja Mecânica, adaptado do romance futurista de Anthony Burgess. Malcolm MacDowell faz o delinquente sádico que é preso e passa por uma lavagem cerebral. As cenas são impressionantes, mas no Brasil o filme teve outro destino. Proibido durante alguns anos pela censura, toda-poderosa na época da ditadura militar, foi liberado com a condição de que as partes, digamos assim, pudendas dos atores não aparecessem. Assim, bolinhas pretas foram pintadas sobre os genitais do elenco e, claro, acompanhavam os atores em seu deslocamento pela tela. O filme transformou-se em comédia involuntária, pelo menos nesses momentos.
2001 é demasiadamente rico para ser esgotado por um único aspecto. Mas um dos seus traços mais impressionantes é o contraponto entre a tecnologia benigna do início e a ameaça do computador Hal, que se volta contra seus senhores. O desajuste do ser humano não é apenas consigo mesmo, mas também com a sua criação. O homem, para Kubrick, não passa de um deus frustrado e infeliz. Esse é solo comum de obras tão diferentes.


