Lobos bobos
Depois das brincadeiras violentas quando meninos, os rapazolas são preparados por e para jogos violentos
PUBLICAÇÃO
sábado, 30 de março de 2019
Depois das brincadeiras violentas quando meninos, os rapazolas são preparados por e para jogos violentos
Domingos Pellegrini 
Porque nenhum dos tantos massacres cometidos por atiradores em escolas e igrejas em tantos anos, nenhum foi cometido por mulher? Esta é a mais reveladora indagação do documentário “A Máscara em que Você Vive” (Netflix), que esmiúça como a formação (ou deformação) machista resulta em violência, estupros e assassinatos. Orientado por psicólogos especialistas no assunto e amparado por muita pesquisa, o documentário mostra como os homens são, desde meninos, educados para serem apenas machos em vez de homens.
Depois das brincadeiras violentas quando meninos, os rapazolas são preparados por e para jogos violentos. Usam linguagem violenta (“comer” mulheres, por exemplo, é expressão tão usual que não se atenta para seu significado profundo, que é consumir a outra pessoa num ato que se encerra em si mesmo, sem continuidade ou relação). A brutalidade dos rituais masculinos pode ser simbolizada pelos trotes acadêmicos tradicionais, quando calouros e especialmente as mulheres são submetidas a humilhações degradantes em nome de uma sádica fraternidade.

Assim o jovem se faz monstrengo emocional (ou desemocional) resultado de uma educação machista, toda orientada para sufocar sentimentos e expressividade. Nada de ternura ou arte (“vão pensar que sou gay”). E, claro, “homem que é homem” não chora. Homem disputa. Em vez de ajudar quem pode menos, zoa dos menos capazes, assim se diminuindo humanamente mas assumindo o padrão grupal - pois o rapazola passa a respeitar mais o que diz sua turma do que o que dizem seus pais.
A educação humanamente distorcida dos meninos é paralela e disputante com a formação familiar e escolar, a partir do momento em que passam para a adolescência. O comportamento muda visivelmente, e os pais não sabem o que fazer. O menino meigo rejeita carinho. Em casa silencioso, falante com os amigos. No seu canto no quarto, na rua se jogando em aventuras.
A iniciação com álcool e drogas se dá na turma, e é para “parecer bem” para o grupo que o adolescente imita cabelos, roupas, adereços, linguagem e até andar dos seus líderes. E, como os líderes sempre se excedem para exibir habilidades, os outros adotam os excessos como meta. Encher a cara até cair, antes falando tudo que normalmente sufocam falar. Depois da ressaca, porém, voltam a se esquecer como pessoas e retornam à caminhada anterior como jovens lobos, se achando superiores às fêmeas da alcateia.
O documentário mostra que esses homens lobos caminharão para as doenças, inclusive mentais, e para a solidão, entretanto crentes no poder masculino, não aceitando ascensão feminina. Degradam o casamento mas mantém mortal ciúme do novo (ou mesmo futuro) companheiro da ex-companheira, além de alimentarem inveja de sua nova condição de fêmea livre. Nela não conseguem ver uma mulher, tão parteira quanto parceira na construção da humanidade (com minúscula, a significar a condição de ser humano, às vezes alegre, às vezes triste, raivoso agora, compassivo depois, mutante enfim como não são os machos desumanizados pelo machismo, sempre se procurando imutáveis até na cara ou máscara).
Além de não ter sequer uma mulher entre eles, os assassinos de massacres também tem em comum a vida familiar dispersiva ou repressiva. Mas são apenas as manifestações mais monstruosas dessa cultura de violência e supremacia; o caldo de cultura dos monstros vai da bulinação infantil às torcidas organizadas.
Não estaríamos aqui se o homem não tivesse saído das cavernas para caçar, mas não devemos esquecer que a mulher é quem mantinha o fogo aceso na caverna. Ao negar poder à mulher, o machista não vê que subtrai de si mesmo a sinergia ancestral da relação homem-mulher, que contém poder de transformação em si e em redor, como mostram tantos casamentos e parcerias bem sucedidas.
O poder maior, interior, que emana da mulher, é o que os lobos temem. Crentes de que o poder está fora, não olham para dentro, não se veem, não se permitem ser humanos além de machos. São lobos bobos. Mas foram os filhotes de lobo os primeiros animais a confraternizar e conviver com os humanos, assim até transformando-se em cães. A evolução é a suprema lei, ou, como diria o caboclo, com tempo e jeito endireita; os lobos podem se tornar homens.


