Dizem que a cerimônia desta noite de entrega do Oscar terá para o Brasil o sabor de uma partida de Copa do Mundo, o que não deixa de ser um certo exagero. Mas se assim for, é bom lembrar que hoje a Itália pode ter a sua revanche. Na final da Copa do Mundo de 1994, também realizada nos Estados Unidos, o Brasil derrotou a Itália na disputa dos pênaltis, num jogo no qual ambos os times eram favoritos e talentosos. A história se repete, porém em área diferente. Saem de campo Romário e Roberto Baggio e entram Walter Salles e Roberto Benigni. Serão os nomes mera coincidência?
Na disputa pelo prêmio de Melhor Filme Estrangeiro, de um lado está , um filho à procura do pai e uma mulher tentando encontrar sua redenção. Do outro, ‘‘A Vida É Bela’’ que narra a trajetória de um pai que dá seu sangue, sua alma e sua vida para livrar o filho dos horrores do holocausto. Ao contrário da Copa do Mundo, no Oscar não estão em jogo apenas a sorte e o talento, mas o poder da publicidade. Oscar combina com business. É nesse terreno que o Brasil está em desvantagem. A Sony, distribuidora de ‘‘Central do Brasil’’ no exterior, gastou US$ 1,3 milhão na promoção do filme, enquanto a Miramax investiu exatamente dez vezes mais na promoção de ‘‘A Vida É Bela’’. Além disso, barganhou com os exibidores: quem não mostrasse a produção italiana, ficaria sem ‘‘Pânico 2’’ e ‘‘Halloween 20’’, também distribuídos pela Miramax.
Na verdade, o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro não premia o melhor filme produzido fora dos EUA, mas o filme estrangeiro mais bem promovido nos EUA. Se não fosse assim, produções como ‘‘Adeus, Minha Concubina’’, de Chen Kaige; ‘‘Kagemusha’’, de Akira Kurosawa e o ‘‘O Último Metrô’’, de François Truffaut, não teriam sido derrotadas por outros filmes menos talentosos. Hoje, no entanto, a realidade é diferente, pois estão no páreo dois bons filmes - ambos são vencedores de mais de 30 prêmios. Uma reportagem publicada na última edição da revista italiana ‘‘Panorama’’ diz que a Miramax está comprando o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro para ‘‘A Vida É Bela’’, o que não deixa de ser mais um exagero. O filme de Roberto Benigni é bom e se ganhar a estatueta será uma premiação merecida.
Para ‘‘Central do Brasil’’ o Oscar simbolizaria a coroação de um rei que já foi eleito pelo povo para ocupar o trono por ser talentoso, nobre, humano, ético, cativante e que entrará para a história por ter mostrado ao mundo inteiro que o Brasil não é apenas o país do futebol, mas também do cinema. No Fla-Flu desta noite, não haverá perdedores e nem vencedores mas, isto sim, dois filmes que já são vitoriosos por terem levado às telas a paixão de dois homens pelo cinema: Walter Salles e Roberto Benigni.ReproduçãoRoberto Benigni e Nicoletta Braschi em ‘‘A Vida é Bela’’: filme tem inegável valor, mas também conta com a máquina publicitáriaDistribuidora de ‘‘A Vida É Bela’’ investiu mais de US$ 10 milhões na vitória do filme italiano

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