Lobão acerta no formato acústico
Celso Pacheco/DivulgaçãoLobão ganhou a platéia do Cabaré com sucessos do passado e interpretações fortesRanulfo Pedreiro
As rodas de violão exigem alguns recursos quase indispensáveis. Mais do que tocar muito bem, é necessário desenvoltura e um repertório de mão dupla, ou seja, que agrade platéia e músico - no meio dá para acrescentar coisas diferentes sem perder o pique.
Lobão utilizou essas características no ‘‘show caseiro’’ - como ele mesmo definiu - anteontem no Cabaré do Filo. Com uma diferença: ele tem muito carisma. Como instrumentista não é nenhum virtuose, mas conhece o riscado e domina o suficiente para segurar suas próprias composições - Lobão foi apoiado por dois violões de 12 cordas e um de seis.
Quando o show começou e o compositor apareceu para o tradicional ‘‘boa noite’’, surgiu uma dúvida. Lobão se limitaria às baladas por serem apropriadas ao formato acústico ou se arriscaria pelos rocks mais pesados, inclusive pelas faixas eletrônicas de seu último CD?
A primeira música interpretada foi a conhecida - e bela - ‘‘Chorando no Campo’’, ideal para voz e violão. Aos poucos, público e cantor foram relaxando em um show informal, mas nem por isso amador. Descontraído, ele foi mandando antigos sucessos, com interpretação forte, voz rouca, às vezes chorosa, e pegada segura. Scats e onomatopéias proliferaram, arranjos de sopros foram improvisados na voz.
O pique foi crescendo e o compositor embarcou em rocks como ‘‘Vida Bandida’’, sem escorregar. Aí o Lobão que só tomou bebida energética não se diferenciou do cara que consumia garrafas de uísque no palco na década de 80. Manteve o ritmo e embalou o público - um dos maiores dos shows do Festival.
Não faltaram críticas aos mauricinhos e à imprensa (‘‘minha namorada histérica’’, afirmou). Não seria o Lobão se fosse diferente. Com uma carreira de altos e baixos, o cantor já questionava, nos anos 80, a pasmaceira em que o rock estava se afundando. Aí transitou pelo samba, gravou com Nelson Gonçalves, deu uma força para Elza Soares e enveredou pela música eletrônica.
Mas se mostrou um dos compositores mais consistentes de sua geração. Nessa trajetória, ganhou fama de polêmico e teve conflitos com gravadoras. Embora seu último disco ‘‘Noite’’ seja ‘‘um fracasso de vendas’’, como definiu no show, Lobão mantém um público fiel, mas que não está se renovando.
Ao optar pelos sucessos do passado, o músico acertou no repertório e cativou a platéia, que dançou e colaborou nos refrões. Poucas músicas novas ou inéditas foram executadas, o compositor preferiu lembrar o tempo em que era acompanhado pelos Ronaldos, desenterrando ‘‘Cena de Cinema’’ e ‘‘Ronaldo Foi Para a Guerra’’. Foi um ótimo show de rock, interpretado com vigor. Na medida para voz e violão.

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