São Paulo, 13 (AE) - Antonio Lizárraga está comemorando 40 anos de carreira com uma exposição de desenhos na Galeria Valu Oria, que será aberta amanhã (14), às 21 horas. Em 1959, ele iniciou sua colaboração como ilustrador do "Suplemento Literário" do jornal "O Estado de S.Paulo" e, desde então, não parou de frequentar as bienais de São Paulo (participou de cinco) e acumular prêmios. A obra de Lizárraga é tão extensa e importante para a arte brasileira que só este ano surgiram dois estudos sobre ela, um concluído e outro em curso. O primeiro é uma tese de mestrado de sua assistente Maria José Spiteri Passos. O segundo está sendo escrito pela crítica Annateresa Fabris.
A dissertação de mestrado da assistente de Lizárraga analisa justamente a produção atual do artista e, em particular, a série "Itaim Bibi, Vila Olímpia, Margem Sul", da qual fazem parte as duas dezenas de desenhos agora expostos na galeria de Valu Oria. A série é imensa. Tem mais de 600 desenhos e resume, de certa maneira, o mundo de um artista cujos movimentos foram limitados por um acidente vascular cerebral em 1983. Ele, que poderia ter encerrado sua carreira nesse momento, lutou e construiu uma obra magistral, sem concessões ou virtuosismo. Isso explica, em parte, a miopia de um mercado que se deixa facilmente seduzir pelo excesso e tem horror à rarefação. Lizárraga é para poucos. É para quem entende a iconografia do sofrimento, expressa por intermédio de um método construtivo rigoroso. Testemunho - A degradação de um mundo do qual Lizárraga faz parte como observador encontra nesses desenhos seu antídoto. A linha, para ele, não é só um princípio formal. O sentido do trágico passa por ela. Sem movimentos no corpo, a não ser pela mão esquerda, ele traça no papel reticulado a forma geométrica que imagina, elege suas dimensões e cores, passa as instruções para suas assistentes e o resultado não é apenas um desenho, mas o testemunho de uma vida que teve de retroceder ao ponto zero, do silêncio e da contemplação, para reconstruir um mundo em dissolução.
Esse é seu "testamento visual", segundo sua assistente Maria José. Mas não um testamento amargo. "Seus jogos compositivos têm caráter lúdico, ele brinca com o observador de sua obra", observa. Exigente, Lizárraga encontrou nela uma ótima tradutora. "Conheci essa obra há sete anos e fiquei impressionada com a sutileza da técnica, o que me fez decidir ser sua assistente", conta. Perfeição - A economia formal de Lizárraga, de fato, impressiona porque essa redução não se limita ao mundo das aparências. Nascido na Argentina há 73 anos e naturalizado brasileiro, Lizárraga sabe que a vida deveria ser sinônimo de liberdade, mas já não pode experimentar essa condição. Assim, o espaço branco desses desenhos é um espaço de experiência, de silêncio, em que tanto o artista como o espectador podem livrar seus olhos da rigidez imposta pela linha.
Ambígua, a forma do quadrado, que domina toda a série de desenhos, pode representar a perfeição, mas vira cárcere. O que era expansão em Albers vira retração nessa figura resistente à degradação, justamente por ser uma forma perfeita. "A linha é minha própria solidão", define Lizárraga. "Discordo que a perfeição seja monstruosa por não pertencer ao homem", diz, referindo-se ao peso simbólico de uma figura como o quadrado.
Quando o coloca em desequilíbrio, aí sim o quadrado assume essa dimensão, segundo o artista. "Paradoxalmente, é preciso tirar esse equilíbrio para o manter", explica, lembrando que sua vida tem sido uma sequência de desafios, como esta série de desenhos em que reina a unitária e simétrica forma do quadrado. Serviço - Antonio Lizárraga. Segunda a sexta, das 10 às 19 h; sábado, das 11 às 14 h. Valu Oria. Alameda Gabriel Monteiro da Silva, 1.403, tel. 883-0811. Até 06/11.

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