LIVROS/LANÇAMENTOS - O mito descrito em palavras
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terça-feira, 21 de dezembro de 2004
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
De todos, ele foi o mais atrevido. Nenhum outro jornalista brasileiro colecionou tantos admiradores e desafetos quanto Paulo Francis (1930-1997) ao longo do século 20. Tudo lhe parecia permitido, inclusive o exercício da leviandade, que praticou com mordacidade implacável contra tudo e todos durante quatro décadas. Mesmo assim, cativou leitores à direita e à esquerda do espectro ideológico.
O livro ''Paulo Francis Brasil na Cabeça'' traz um perfil do mito, desvendando sua trajetória intelectual com sobriedade e distanciamento crítico. O lançamento faz parte da coleção Perfis do Rio, da editora Relume Dumará. O autor é o jornalista Daniel Piza, que entrou na Redação do ''Estado de S. Paulo'', por indicação de Francis.
Na reconstituição de percurso, a grandeza do personagem é várias vezes enfatizada. ''Ele foi um dos principais críticos de teatro de sua geração, um dos maiores polemistas políticos, um comentarista de política internacional muito hábil tanto na imprensa escrita como na TV. E mostrou como poucos o valor formador que a mídia pode ter, levando, com seu fraseado contagiante, muitos jovens leitores a descobrir o prazer da vida cultural, a necessidade de buscar informações e experiências para tirar uma opinião própria'' salienta.
Em outra passagem, o autor ressalta a qualidade de texto do retratado: ''Para os leitores, não eram apenas as opiniões de Francis que contavam. Era a maneira como ele as emitia, a personalidade com que as lançava seu estilo inimitável, mistura modernista de expressões antigas, frases aforismáticas e musicalidade oral''.
Aos pontos elogiáveis, Piza não deixa de elencar as facetas negativas, recriminando o tom exagerado das críticas, que com frequência caíam no ataque pessoal. Aponta ainda, entre os defeitos, os insultos preconceituosos contra negros, homossexuais e nordestinos. Mais adiante, relativiza as tão decantadas originalidade e profundidade do mestre, argumentando que muitas de suas avaliações eram copiadas de Edmund Wilson (1895-1972), George Jean Nathan (1882-1958), Philip Rav e outros ídolos.
Em outro parágrafo, condena o hábito de Francis de citar frases famosas sem registrar o autor, além de opinar demais sobre assuntos que dominava pouco. ''Seus comentários gastronômicos faziam rir seus amigos da mesma geração, que dizem que Francis sempre gostou mesmo de um bom sanduíche'' escreve. Incorporando elementos de relato biográfico, Piza dividiu o livro em três capítulos.
No primeiro, destaca o período pós-golpe militar de 1964 até a década de 80. No segundo narra a infância, a juventude e a fase como crítico teatral. E o terceiro, por fim, examina os últimos 17 anos abordando suas incursões como escritor e a consagração como comentarista da TV Globo e colunista dos grandes jornais paulistanos.
O livro flagra um Francis jovem vivendo intensamente a boêmia carioca. ''Era uma época em que todo jornalista fumava e bebia muito'' sublinha o autor. No final dos anos 60 e começo dos 70, as noites da turma terminavam sempre em sexo. ''Drogas, principalmente a cocaína, rolavam à vontade. Algumas festas atravessavam o fim de semana. Numa delas, depois de cheirar e beber muito, Francis apagou. Acordou, dias depois, numa casa que não era a sua. Quem o recolheu, deu banho e pôs na cama foi o dramaturgo Dias Gomes'' conta.
O golpe militar de 1964 é apontado como o grande trauma na vida do jornalista, um divisor de águas emocional e intelectual da maturidade que o levou da crença num socialismo tropical para a desilusão apocalíptica. Durante os anos de chumbo, Francis foi censurado várias vezes e preso em quatro ocasiões, o que o obrigou a se mudar para Nova York em 1971. Jamais, porém, posou como vítima da ditadura.
Piza anota: ''Uma vez perguntaram se tinha sido torturado: 'Fui. O Carcereiro passava o dia todo com o rádio tocando Wanderléa'', teria respondido Francis. Páginas adiante, o livro recapitula as polêmicas provocadas ao longo dos anos 80 e 90 detalhando as réplicas e tréplicas trocadas com Caetano Veloso, Arnaldo Jabor, José Guilherme Merquior e Caio Túlio Costa. Quase ao final do volume, o autor revela os projetos de livros que Francis anunciou ou deixou inacabados, como dois romances (um deles em inglês) e um volume de ensaios sobre pensadores religiosos.
''Paulo Francis Brasil na Cabeça'' é o segundo título de Daniel Piza dedicado ao mestre. O outro é ''Waaal O Dicionário da Corte'', uma coletânea de verbetes sobre cultura, comportamento e política garimpados de colunas assinadas por Francis de 1977 a 1996.
Serviço:
- Livro: ''Paulo Francis Brasil na Cabeça''. Lançamento: editora Relume Dumará em parceria com a Secretaria Municipal das Culturas do Rio de Janeiro (tel. 21/2564-6869. Páginas: 120. Preço: 26,00.


