Para alívio dos historiadores, ninguém levou muito a sério o pedido de Platão, em ‘‘A República’’, via Sócrates, para que se excluíssem as palavras enganosas dos poetas da educação dos jovens. Afinal, é por meio de seus versos que sabemos como vivia e amava o mundo clássico. E como amavam. Os melhores guias para se conhecer o dia-a-dia romano - e também suas noites - são ‘‘O Livro de Catulo’’, (Edusp, 280 páginas, R$ 38,00) em tradução de João Angelo Oliva Neto e ‘‘Erotismo no Império Romano: Eros em Roma’’, de Graciela Rodriguez (Editora Record, 232 páginas).
Dialeticamente, foi da destruição que se construiu a prosperidade econômica e artística da Roma de Augusto. Dizimada Cartago, a cidade-mundo ficou livre e rica para se dar ao luxo de uma literatura mais leve e individualista, antídoto contra a sisuda tradição de Ênio, o arcaico pai da poética romana. O único dentre os irrequietos neoteroi (grupo de poetas não-romanos que reagiu a essa herança) a chegar até nós foi, em sua genialidade, Gaius Valerius Catullus.
Nascido em Verona, em 84 a.C., Catulo, morto aos 30 anos, foi contemporâneo de Cícero, Pompeu e César, os quais, aliás, adorava alfinetar em seus poemas. Filho de uma família endinheirada, teve acesso à sociedade romana em todo o seu esplendor e decadência e foi numa dessas noitadas que conheceu a musa a quem dedicou 25 dos 114 versos que resistiram ao tempo: Lésbia. Em verdade, Clódia, irmã de Públio Clódio, inimigo de Cícero, que a cantou em prosa e verso na tribuna, revelando sua devassidão.
Ardentes, desesperados, apaixonados, agressivos, os poemas celebram Lésbia na mesma intensidade em que execram sua infidelidade. Em plena era de Cícero, Catulo ousou, como bom alexandrino, falar do amor com realismo e sinceridade brutais. Na sua pena, mesmo as formas poéticas mais elevadas viravam, ao retratar a mais humana das expressões, um veículo expressivo dos mais humanos. Rompendo-se com as métricas tradicionais foi, com Cornelius Gallus, um dos idealizadores da elegia romana.
CronistaMas, além dos versos de Lésbia e das inventivas escritas, com muita malícia, contra César e Pompeu, Catulo foi um excelente cronista de seu tempo, cujas minúcias do cotidiano descreveu vivamente, e de sua vida. Como seu tocante lamento à beira da sepultura do irmão ou nas indiscrições sobre a ligação homossexual com o jovem Juventius. Criando apenas para os docti, colegas poetas, Catulo quase se perdeu no limbo histórico, salvo graças a um único manuscrito do século 14, preservado em Verona.
Ele também está presente, no seu melhor estilo desbocado, em ‘‘Erotismo no Império Romano’’, de Graciela Rodriguez, uma verdadeira enciclopédia da ‘‘sacanagem’’ romana, um tudo-o-que-você-queria-saber-sobre-sexo na Roma antiga, com a consultoria de Ovídio, Apuleio, Petrônio, Suetônio, entre tantos outros mestres respeitáveis, de cujas obras a autora extraiu citações para uma verdadeira devassa na vida sexual clássica, em seus aspectos mais impublicáveis.
E há escritos para cada prática sexual e amorosa, da mera conquista às várias formas de prazer, passando pela masturbação, a zoofilia, o homossexualismo e até mesmo pelos célebres grafites de banheiro, encontrados nas escavações de Pompéia. Passado o deleite e a ávida curiosidade da primeira leitura, tem-se, com o livro, acesso à riqueza de poetas que, ao nos mostrar o passado, desnudam o nosso presente. Sem trocadilhos. Platão os colocaria para fora de sua república.

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