LIVROS Sucesso a toda prova
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de fevereiro de 2003
Luiz Zanin Oricchio<br>Agência Estado 
O lançamento da autobiografia de Roberto Freire, Eu É Um Outro (Maianga, 448 páginas), recorda o leitor da presença importante do autor na cena cultural paulistana e brasileira. Freire foi psicanalista, depois aderiu às teorias de Reich, escreveu peças de teatro, contos e romances, colaborou em jornais, fundou um teatro e dirigiu um filme.
Sobre o filme Cléo & Daniel, ele não gosta de falar muito. Ele andava desaparecido na poeira do tempo, até ser reapresentado recentemente numa mostra do Cinesesc de São Paulo chamada de Um só Pecado - isto é, a programação era exclusiva de diretores que haviam cometido apenas um longa-metragem. Roberto era um deles.
O romance era incontornável para quem foi jovem nos anos 60. O livro foi o maior sucesso, daquele tipo que se discute em todas as rodas, algo talvez impossível hoje em dia. Falava do amor terminal, um amor adolescente, louco, que nascia na dureza da cidade grande. Além do romance dos adolescentes Cléo e Daniel, Freire colocava em cena outros personagens, como o psicanalista moralmente falido, Rudolph, e seu amigo, um intelectual negro que estava morrendo de câncer. Entre a paixão e a aspereza da metrópole, Freire cozinhava uma espécie de existencialismo local, com o desespero dos personagens colocado contra o pano de fundo da ditadura militar.
Na autobiografia ele conta que o romance não obteve recepção crítica alguma, mas, na base do boca a boca, foi se firmando como um dos mais lidos de sua época. Está hoje em sua 20ªedição. Quantos escritores brasileiros podem dizer a mesma coisa de um de seus livros?
Já com o filme a conversa foi outra. Freire descreve a experiência na autobiografia. Sem saber nada de cinema, recebeu a proposta da adaptação por parte de um banco, que se dispunha a entrar com dinheiro. O autor estudou cinematografia e, assim que se considerou pronto, reuniu elenco e chamou o experiente produtor Fernando de Barros para ajudá-lo. Cléo seria interpretada pela atriz Irene Stefânia, e Daniel, por Chico Aragão. Na época, 1969, Freire andava apaixonado por uma das obras-primas de Luchino Visconti, Rocco e Seus Irmãos, e procurava captar sua estética realista, segundo escreve.
No entanto, o dinheiro adiantado pelo banco acabou no meio do trabalho e a filmagem teve de ser terminada sem a mesma qualidade da primeira fase. Quando o filme entrou em cartaz, Freire fugiu para Roma e permaneceu na Europa até que ele saísse de cartaz no Brasil. Desde então, entrou no limbo e foi resgatado apenas em 1999, ou seja 30 anos depois, em uma exibição no Canal Brasil. Roberto Freire o reviu e não achou tão ruim assim. Tem razão. Sem a mesma força do livro, é filme que cativa por sua sinceridade e intuição. Tem mesmo seus momentos de bom cinema.


